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Curva do esquecimento: o que Ebbinghaus descobriu

A curva do esquecimento mostra como a memória se apaga depois que você aprende algo: depressa no início, depois cada vez mais devagar. Hermann Ebbinghaus a publicou em 1885, e uma replicação feita 130 anos depois traçou quase o mesmo formato. A versão que circula em apresentações de slides ("você esquece 70% em um dia") interpreta mal o que ele mediu. Testar a si mesmo e depois espaçar os testes achata a curva.

16 min de leitura
Pontos-chave
    • O esquecimento é rápido no início e lento depois: nos dados de Ebbinghaus, o tempo que ele economizava ao reaprender uma lista caiu de 58%, vinte minutos após o aprendizado, para 34% um dia depois, e um mês depois tinha descido apenas para 21%. A maior parte da perda acontece nas primeiras horas.
  • Os números famosos medem economia, não recordação: Ebbinghaus cronometrou o quanto mais rápido conseguia reaprender uma lista, e não quanto dela conseguia recitar. "Você esquece 70% em 24 horas" estica um número sobre sílabas sem sentido até transformá-lo em uma regra sobre tudo.
  • A curva foi replicada, com peculiaridades e tudo: em 2015, Jaap Murre e Joeri Dros repetiram o experimento ao longo de cerca de 70 horas de aprendizado e obtiveram uma curva parecida. Eles concluíram que ela "muito provavelmente mostra um salto para cima" na marca de um dia, algo que a pesquisa sobre o sono preveria, embora essa ligação ainda não tenha sido estabelecida para esse tipo de experimento.
  • Sílabas sem sentido são quase o pior caso possível: Ebbinghaus aprendeu estrofes da poesia de Byron com cerca de um décimo das repetições que ele estimou para a mesma quantidade de sílabas sem sentido. E houve quem conservasse, por mais de 50 anos, grande parte do espanhol aprendido na escola.
  • A solução é recordar e espaçar: num teste feito uma semana depois, os estudantes que leram um texto durante um único período de cinco minutos e depois o recordaram três vezes seguidas lembraram 61% dele; os que passaram os quatro períodos seguidos relendo lembraram 40%. Quanto mais tempo você precisa lembrar, mais longo é o intervalo ideal antes de uma revisão.

O que é a curva do esquecimento?

A curva do esquecimento é um gráfico que mostra quanto do que você aprendeu permanece na memória ao longo do tempo. Ela cai de forma acentuada nos primeiros minutos e horas depois do aprendizado e então se achata, de modo que o que sobrevive aos primeiros dias se apaga muito mais devagar. O primeiro a descrevê-la foi o psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus, com base em experimentos nos quais ele mesmo era o único participante. Ele a apresentou no livro Über das Gedächtnis ("Sobre a memória"), de 1885, publicado em inglês em 1913 como Memory: A Contribution to Experimental Psychology.

Há três ideias embutidas nesse formato:

  • A maior parte do esquecimento acontece cedo. As maiores perdas vêm na primeira hora e no primeiro dia.
  • O ritmo do esquecimento diminui. Uma memória que já durou uma semana é muito mais estável do que uma que tem uma hora.
  • Revisar muda a curva. Uma revisão no momento certo, sobretudo uma em que você precisa tirar a resposta da memória, desacelera a rodada seguinte de esquecimento.

O que a curva não oferece é uma porcentagem universal. A curva de Ebbinghaus descreve um único homem memorizando sílabas sem significado, com resultados medidos por um critério que a maioria dos resumos nunca explica. Os números que circulam na internet ("metade some em uma hora", "70% em um dia") vêm dessa situação bem específica e não se transferem sem distorção para um capítulo de livro didático, uma aula ou um artigo que importava para você.

Ebbinghaus ajustou seus dados com uma fórmula logarítmica. Pesquisadores posteriores descobriram que uma função potência descreve a maioria dos dados de esquecimento pelo menos tão bem quanto ela. Na prática, as duas dizem a mesma coisa: íngreme, depois plana, com uma cauda longa.


O experimento da curva do esquecimento de Ebbinghaus

Ebbinghaus queria estudar a memória sem a bagunça do significado. A poesia e a prosa, escreveu ele, trazem "uma multiplicidade de influências que mudam sem regularidade e que, por isso, são perturbadoras": associações, um interesse que oscila, versos que grudam na memória por serem marcantes ou bonitos. A solução dele foi a sílaba sem sentido: consoante, vogal e consoante, encadeadas em algo pronunciável, mas sem significado (pense em "fep" ou "gim"). Ele criou cerca de 2.300 delas, embaralhou todas e foi sorteando as listas.

O experimento por trás da famosa curva foi realizado em 1879 e 1880:

  1. Aprender. Ele estudava listas de 13 sílabas até conseguir recitá-las duas vezes sem nenhum erro, cronometrando todo o processo.
  2. Esperar. Passava-se um intervalo fixo: 20 minutos, 1 hora, cerca de 9 horas, 1 dia, 2 dias, 6 dias ou 31 dias.
  3. Reaprender. Ele aprendia as mesmas listas de novo, até o mesmo critério, e cronometrava isso também.
  4. Comparar. O tempo economizado na reaprendizagem, como porcentagem do tempo do aprendizado original, era a sua medida do que restava na memória.

Ele registrou 163 desses testes de aprender e reaprender, cada um geralmente com oito listas. Definiu a sua medida, a economia, como "a economia de trabalho evidente na reaprendizagem, o equivalente da quantidade lembrada do primeiro aprendizado, expressa em porcentagem do tempo necessário para esse primeiro aprendizado".

Veja o que ele encontrou:

Tempo desde o aprendizadoEconomia (Ebbinghaus, 1885)A reaprendizagem levou esta parcela do tempo original
20 minutos58,2%41,8%
1 hora44,2%55,8%
Cerca de 9 horas35,8%64,2%
1 dia33,7%66,3%
2 dias27,8%72,2%
6 dias25,4%74,6%
31 dias21,1%78,9%

Nas palavras dele: "Uma hora depois do fim do aprendizado, o esquecimento já tinha avançado tanto que metade da quantidade do trabalho original precisava ser gasta antes que a série pudesse ser reproduzida de novo; depois de 8 horas, o trabalho a ser reposto chegava a dois terços do primeiro esforço. Aos poucos, porém, o processo ficava mais lento, de modo que, mesmo para períodos bastante longos, a perda adicional só podia ser constatada com dificuldade."

Essa última frase resume a curva. Entre 20 minutos e um dia, a economia caiu cerca de 25 pontos percentuais. Entre o dia 1 e o dia 31, caiu cerca de 13.

O método da economia tem uma força escondida: ele consegue detectar memórias fracas demais para serem recordadas. Uma lista da qual você não consegue recitar uma única sílaba ainda pode ser mais rápida de reaprender, o que mostra que algo sobreviveu. É também por isso que as porcentagens de economia não são a mesma coisa que "quanto você lembra", a confusão por trás da maioria dos mitos a seguir.


Cinco mitos sobre a curva do esquecimento

A curva do esquecimento é uma das descobertas mais citadas da psicologia, e uma das mais deturpadas. Apresentações de treinamento, apps de estudo e blogs de produtividade repetem versões dela que Ebbinghaus não reconheceria.

Afirmação popularO que a pesquisa realmente mostra
A curva mostra a parcela do material que você ainda consegue recordarEla mostra a economia: o quanto a reaprendizagem foi mais rápida. Recordação é outra medida
Você esquece cerca de 70% do que aprende em 24 horasEsse número é aproximadamente 100% menos a economia de um dia de Ebbinghaus (33,7%) com sílabas sem sentido. Não é uma taxa de recordação, e vem de material sem significado
O esquecimento é um decaimento exponencial perfeitoA maioria dos dados se ajusta melhor a uma curva do tipo potência: um começo íngreme, depois uma cauda longa e lenta
Todo mundo esquece no mesmo ritmoA inclinação depende do significado, de quão bem você aprendeu da primeira vez, do sono e da interferência
Revise em dias fixos (digamos, 1, 7 e 30) e está tudo resolvidoO melhor intervalo depende de por quanto tempo você precisa lembrar, e intervalos crescentes não superaram de forma confiável os intervalos iguais

Mito 1: a curva diz qual porcentagem você lembra. Ebbinghaus nunca contou quantas sílabas conseguia recitar depois de um intervalo. Ele mediu quanto tempo a reaprendizagem levava. Uma economia de 33,7% depois de um dia significa que reaprender levou cerca de dois terços do tempo da primeira vez. Não significa que ele conseguia recitar um terço da lista. A recordação pode ficar perto de zero enquanto a economia continua bem acima disso.

Mito 2: você esquece 70% de tudo em um dia. Este mito está por toda parte nos materiais de treinamento corporativo. O número equivale, grosso modo, a 100% menos a economia de um dia de Ebbinghaus, o que faz dele uma afirmação sobre o tempo de reaprendizagem, e não sobre a recordação, e ele se apoia em uma única pessoa aprendendo sílabas construídas para não ter significado. Os próprios testes de Ebbinghaus com a poesia de Byron, abordados mais abaixo, mostraram que as estrofes eram muito mais rápidas de aprender, e mais fáceis de reaprender um dia depois, do que as suas listas curtas de sílabas.

Mito 3: o esquecimento é exponencial. Muitos textos explicativos apresentam a curva como R = e^(-t/S), um decaimento exponencial elegante. Essa não é a fórmula de Ebbinghaus, nem a que melhor se ajusta aos dados.

Em 1991, John Wixted e Ebbe Ebbesen fizeram três experimentos (recordação de palavras, reconhecimento de rostos e uma tarefa de memória com pombos) e compararam seis funções candidatas. Uma função potência simples venceu, e ela também se ajustou a uma reanálise dos próprios dados de economia de Ebbinghaus.

Cinco anos depois, David Rubin e Amy Wenzel ajustaram 105 funções diferentes de dois parâmetros a 210 conjuntos de dados publicados. Os melhores ajustes foram a função logarítmica, a função potência, a exponencial da raiz quadrada do tempo e a hipérbole da raiz quadrada do tempo. O decaimento exponencial simples não estava na lista.

Uma curva de potência tem uma cauda longa e pesada: depois que uma memória dura um certo tempo, ela decai muito mais devagar do que uma exponencial preveria. O conhecimento antigo é mais resistente do que os gráficos assustadores sugerem.

Os dois últimos mitos (uma curva para todos, um cronograma para tudo) ganham seções próprias mais abaixo.


A curva do esquecimento é real? O que as replicações descobriram

Sim. O formato básico foi replicado, algo mais raro na psicologia do que deveria ser. Em 2015, Jaap Murre e Joeri Dros, da Universidade de Amsterdã, publicaram uma replicação cuidadosa na PLOS ONE.

Dros, o segundo autor, foi o único participante, assim como Ebbinghaus tinha sido. Como ele era falante nativo de holandês, os autores a chamaram de primeira replicação não alemã. Entre dezembro de 2011 e fevereiro de 2012, ele passou cerca de 70 horas aprendendo listas de 104 sílabas sem sentido (oito linhas de 13, tantas quanto Ebbinghaus aprendia numa sessão de oito listas) e reaprendendo-as depois dos mesmos sete intervalos.

Os autores concluíram "que a curva do esquecimento de Ebbinghaus foi de fato replicada e que ela não é completamente suave, mas muito provavelmente mostra um salto para cima a partir do ponto de dados de 24 horas". A comparação deles também incluiu dois participantes, Mack e Seitz, de uma replicação alemã anterior feita por Heller, Mack e Seitz (1991):

Tempo desde o aprendizadoEbbinghaus (1885)Mack (1991)Seitz (1991)Dros (2015)
20 minutos58,2%54,4%44,2%47,2%
1 hora44,2%43,2%32,5%37,3%
9 horas35,8%28,5%27,0%27,6%
1 dia33,7%31,6%27,0%31,7%
2 dias27,8%36,5%28,6%23,0%
6 dias25,4%30,9%20,5%16,8%
31 dias21,1%25,8%20,1%4,1%

Quatro pessoas, separadas por mais de um século, produziram o mesmo formato básico. Dois detalhes chamam a atenção.

O salto na marca de um dia. Nos dados de Dros, a economia foi maior depois de um dia (31,7%) do que depois de nove horas (27,6%), e os dados de Mack mostram a mesma subida. Ebbinghaus tinha visto uma versão mais branda: a economia dele quase não se mexeu entre 9 e 24 horas (de 35,8% para 33,7%) e depois caiu mais depressa ao longo do dia seguinte.

Ebbinghaus considerou se "a noite e o sono" poderiam explicar o padrão, decidiu que não e concluiu que o seu número de 24 horas provavelmente era "um tanto alto demais". Ainda assim, acrescentou: "tenho dúvidas a respeito", porque testes de um estudo separado, de 1883 e 1884, tinham dado quase o mesmo número (33,4%).

Murre e Dros viram o salto de outra forma. "A pesquisa atual sobre os efeitos do sono na memória preveria um salto assim", escreveram, ressalvando que, para esse tipo de experimento, isso "ainda precisa ser estabelecido". Um intervalo de nove horas pode se passar dentro de um único dia acordado; um intervalo de um dia sempre inclui uma noite de sono. Nos ajustes de curva que eles fizeram, o maior salto foi o de Mack, o de Ebbinghaus foi pequeno e o de Dros não apareceu; na avaliação dos autores, o ajuste de Dros provavelmente foi distorcido pela pontuação muito baixa que ele teve depois de um mês.

O ponto fora da curva dos 31 dias. A economia de Dros depois de um mês foi de apenas 4,1%, muito abaixo da de todos os outros. Os autores atribuíram parte disso a um aumento lento e constante dos tempos de aprendizado de Dros ao longo do experimento, que, segundo eles, poderia se dever à interferência proativa (listas anteriores atrapalhando as novas) ou ao cansaço. Corrigir esse aumento elevou o número para 13,7%, ainda bem abaixo dos outros três, cuja economia um mês depois ficou entre 20,1% e 25,8%.

O formato também se mantém muito além das sílabas sem sentido. No levantamento de Rubin e Wenzel sobre um século de estudos de retenção, a mesma pequena família de curvas se ajustou à maioria dos 210 conjuntos de dados, com a memória autobiográfica como principal exceção.


O que muda o formato da sua curva do esquecimento

Ebbinghaus escolheu sílabas sem sentido para manter o significado fora dos seus dados, o que também as tornou quase o pior caso possível: não havia nada a que a memória pudesse se agarrar. O aprendizado real raramente é assim, e vários fatores alteram a curva.

Significado. Em 1884, Ebbinghaus fez um experimento paralelo com estrofes do Don Juan de Byron. Para aprender cada estrofe de 80 sílabas, ele precisou de "escassas nove repetições"; extrapolando a partir dos seus dados com sílabas, estimou que de 80 a 90 sílabas sem sentido teriam exigido de 70 a 80. Ele chamou isso de "a extraordinária vantagem que os laços combinados de significado, ritmo, rima e uma língua comum dão ao material a ser memorizado". As estrofes também resistiram bem ao tempo. Um dia depois, reaprendê-las exigiu cerca de metade do trabalho original, enquanto as suas listas de 12 sílabas exigiram cerca de dois terços, e, para serem aprendidas da primeira vez, as estrofes tinham precisado de menos da metade das repetições exigidas por essas listas. (Já as suas listas bem mais longas, de 24 e 36 sílabas, que exigiram muito mais repetições para serem aprendidas, se saíram igualmente bem ou melhor.)

O quão bem você aprendeu da primeira vez. O estudo de Harry Bahrick de 1984 testou o que 733 pessoas lembravam do espanhol que tinham estudado na escola, até 50 anos antes. O conhecimento delas diminuiu nos primeiros três a seis anos, depois permaneceu essencialmente inalterado por até 30 anos, antes de um declínio final.

"Grandes partes da informação adquirida originalmente continuam acessíveis por mais de 50 anos, apesar de a informação não ser usada nem praticada", escreveu Bahrick. Ele chamou essa camada durável de "permastore" (algo como "armazém permanente"). O tamanho dela acompanhava o nível do treinamento original (quanto espanhol as pessoas tinham cursado e as notas que tinham tirado), e a maioria delas mal tinha praticado desde então.

Sono. Dois estudantes participaram do estudo de John Jenkins e Karl Dallenbach de 1924: eles aprenderam sílabas sem sentido e foram testados depois de 1, 2, 4 ou 8 horas passadas dormindo ou acordados. Eles lembraram mais depois de dormir. Jenkins e Dallenbach concluíram que o esquecimento "não é tanto uma questão de decaimento de impressões e associações antigas quanto uma questão de interferência, inibição ou obliteração do antigo pelo novo". A pesquisa moderna trata o sono como um período ativo de consolidação das memórias, o que combina com o salto na marca de um dia visto nas replicações.

Interferência. O aprendizado novo compete com o antigo, e o antigo atrapalha o novo. Essa é uma das razões possíveis para os tempos de aprendizado de Dros terem subido aos poucos ao longo do experimento, embora Murre e Dros não tenham conseguido confirmá-la.

Como você revisa. Reler e recordar parecem coisas semelhantes, mas produzem curvas muito diferentes. Esse é o assunto da próxima seção.


Como vencer a curva do esquecimento

Não dá para parar de esquecer, e você nem iria querer isso. Mas duas técnicas deixam a curva mais plana depois de cada revisão, de forma confiável: espaçar as revisões (repetição espaçada) e transformar cada revisão em um teste (prática de recuperação).

Espaçamento. Ebbinghaus também encontrou o efeito de espaçamento. Comparando dois dos seus experimentos, ele constatou que 38 repetições distribuídas ao longo de três dias deixavam uma lista de 12 sílabas tão bem aprendida quanto 68 repetições amontoadas em um único dia. Isso, escreveu ele, "torna provável a suposição de que, com qualquer número considerável de repetições, uma distribuição adequada delas ao longo de um período é decididamente mais vantajosa do que concentrá-las de uma só vez".

Qual deve ser a distância entre as revisões? A resposta mais útil vem de Nicholas Cepeda, Edward Vul, Doug Rohrer, John Wixted e Hal Pashler (2008). Eles ensinaram um conjunto de fatos pouco conhecidos a 1.354 pessoas, fizeram com elas uma única revisão depois de um intervalo de até três meses e meio e as testaram até 350 dias depois dessa revisão. O melhor intervalo dependia de quão distante estava o teste:

Tempo entre a revisão e o testeMelhor intervalo entre o primeiro estudo e a revisãoIntervalo como parcela desse tempo
1 semanaCerca de 3 dias43%
5 semanasCerca de 8 dias23%
10 semanasCerca de 12 dias17%
350 diasCerca de 27 dias8%

Acertar o intervalo fez diferença. Em comparação com revisar logo em seguida, o melhor intervalo testado aumentou a recordação final em 10% no teste de uma semana e em 59%, 111% e 77% nos testes mais distantes.

Do estudo saem duas regras práticas. Quanto mais distante o momento em que você vai precisar do material, maior o intervalo, embora ele encolha como parcela do total. E intervalos um pouco longos demais custam menos do que intervalos curtos demais: o desempenho subiu depressa à medida que o intervalo crescia em direção ao melhor valor e, passado esse ponto, caiu só aos poucos.

Recuperação. Henry Roediger e Jeffrey Karpicke (2006) pediram a universitários que lessem dois textos curtos em prosa, um sobre o Sol e outro sobre lontras-marinhas. Cada estudante releu um dos textos e fez um teste de recordação, sem feedback, sobre o outro.

Cinco minutos depois, reler parecia melhor: 81% de recordação contra 75%. Dois dias depois, a situação tinha se invertido (68% para o texto testado contra 54%), e depois de uma semana o texto testado estava em 56%, contra 42%. Ou seja, o texto testado foi lembrado tão bem depois de uma semana quanto o relido tinha sido depois de dois dias.

O segundo experimento deles foi ainda mais contundente. Os participantes que estudaram um texto por um único período de cinco minutos e depois fizeram três testes de recordação seguidos lembravam 61% dele uma semana depois. Os que passaram os quatro períodos seguidos relendo lembravam 40%, mesmo tendo lido o texto 14,2 vezes, em média, contra 3,4.

Entre os que releram, os testados depois de uma semana recordaram 52% menos do que os testados depois de cinco minutos; entre os que se testaram repetidamente, a queda foi de 14%. E justamente os que releram foram os que previram que se lembrariam melhor.

Essas são as duas técnicas que Dunlosky e colegas classificaram como de "alta utilidade" na revisão de 2013 sobre dez técnicas de estudo: a prática de testes e a prática distribuída. Destacar e reler receberam nota baixa. Nosso guia de recordação ativa trata a fundo do lado dos testes.


Cronogramas de repetição espaçada: fixos, crescentes ou adaptativos?

Se o espaçamento funciona, qual padrão de espaçamento funciona melhor? Os cronogramas se dividem em três grandes famílias.

Cronogramas fixos colocam todos os itens nas mesmas datas. O método 2357, por exemplo, consiste em aprender um tema no dia 1 e revisá-lo nos dias 2, 3, 5 e 7. Eles são fáceis de planejar, e é por isso que são populares antes das provas.

Cronogramas crescentes esticam o intervalo cada vez que você acerta algo. O sistema Leitner é a versão clássica em papel: os cartões sobem para caixas que você revisa com cada vez menos frequência, e um erro manda o cartão de volta ao começo.

Intervalos crescentes superam o espaçamento igual? Não de forma confiável. Uma meta-análise de 2021 com 29 estudos, de Alice Latimier, Hugo Peyre e Franck Ramus, encontrou um grande benefício em espaçar a prática de recuperação em vez de concentrá-la (g = 0,74), mas praticamente nenhuma diferença entre intervalos crescentes e uniformes (g = 0,034).

Agendadores adaptativos modelam a sua própria curva do esquecimento e trazem cada item de volta pouco antes do momento em que ele tende a escapar da memória. O Anki oferece suporte ao algoritmo FSRS desde a versão 23.10. O FSRS ajusta uma curva do esquecimento em lei de potência ao seu histórico de revisões e dá a cada cartão uma "estabilidade": o número de dias até que a chance prevista de você recordá-lo caia para 90%. As revisões são marcadas para quando essa chance atinge a sua "retenção desejada", que é de 90% por padrão.

O Duolingo construiu o próprio modelo. A regressão de meia-vida (half-life regression) de Burr Settles e Brendan Meeder, de 2016, estima a "meia-vida" de cada palavra na memória de um estudante, e previu a recordação com pelo menos 45% menos erro do que o algoritmo no estilo Leitner que o Duolingo vinha usando.

Tipo de cronogramaComo os intervalos são definidosBom paraPonto fraco
Fixo (método 2357, regras do tipo "1, 7, 30")As mesmas datas para todos os itensUma única prova com data marcadaIgnora quais itens você já sabe
Crescente (caixa de Leitner)O intervalo cresce a cada acerto; um erro o zeraFlashcards feitos à mão, algumas centenas de itensTodos os cartões de uma caixa compartilham o mesmo intervalo
Adaptativo (Anki com FSRS, Duolingo)Um modelo prevê quando a sua recordação vai cair até um nível-alvoBaralhos grandes e horizontes longosExige revisões regulares e uma autoavaliação honesta

Ou seja, o cronograma importa menos do que simplesmente fazer as revisões. Qualquer plano que as espace e faça você recuperar a resposta deve se sair melhor do que reler o material quando por acaso você se lembra de fazer isso.


Como usar a curva do esquecimento no que você lê e assiste

A maior parte do que lemos despenca pela parte íngreme da curva, porque nunca mais voltamos a esse material. Um destaque dá a sensação de progresso, mas é uma marcação que aponta para uma revisão futura, e não a revisão em si. A revisão de Dunlosky classificou o destaque como de baixa utilidade. Um destaque se paga quando alimenta as duas técnicas que funcionam de verdade.

Veja uma rotina baseada na pesquisa acima:

  1. Destaque menos e acrescente uma linha com as suas palavras. Use o destacador web do Glasp para marcar as poucas frases sobre as quais você gostaria de ser testado e anote por que cada uma importa. Colocar a ideia nas suas próprias palavras obriga você a processar o significado, o oposto de uma sílaba sem sentido.
  2. Teste-se antes de fechar a aba. Nos estudos de Roediger e Karpicke, o primeiro teste de recordação acontecia poucos minutos depois da leitura. Feche a página e escreva o que você lembra; o método blurting é uma forma estruturada de fazer isso. Depois, use os seus destaques para conferir o que ficou de fora.
  3. Deixe os seus destaques voltarem até você. O e-mail Daily Highlight Review do Glasp envia um punhado aleatório dos seus destaques antigos da web todos os dias, duas vezes por semana ou uma vez por semana; você escolhe a frequência nas suas configurações de e-mail. Trate cada um como um estímulo: antes de relê-lo, tente lembrar o contexto e por que você o salvou.
  4. Faça o mesmo com vídeos. As aulas também se apagam da memória. O YouTube Summary oferece uma transcrição e um resumo com marcações de tempo, para que você destaque as falas que valem a pena guardar e as revise junto com as suas leituras.
  5. Traga os seus livros para o ciclo. Importe os seus destaques do Kindle e defina uma frequência para o e-mail Daily Kindle Review, para que os trechos dos livros também voltem à tona.
  6. Teste-se sobre tudo o que você guardou. Primeiro escreva a sua resposta a uma pergunta, depois pergunte ao Chat with Highlights do Glasp o que os seus destaques dizem sobre ela. As respostas apontam para os trechos de onde vieram, para você conferir a sua resposta com o que salvou.
  7. Entregue os fatos essenciais a um agendador. Para vocabulário, fórmulas e definições de que você vai precisar por meses, transforme o destaque em um flashcard e deixe uma caixa de Leitner ou o Anki cuidar do momento de cada revisão.

Perguntas frequentes

O que é a curva do esquecimento, em termos simples?

A curva do esquecimento mostra a rapidez com que perdemos uma informação depois de aprendê-la. A memória cai depressa nas primeiras horas e dias, e depois o declínio desacelera. Hermann Ebbinghaus a descreveu pela primeira vez em 1885, e revisar o material, sobretudo recordando-o de memória, deixa a curva mais plana.

Em quanto tempo esquecemos o que aprendemos?

Não existe um número único. Nos experimentos de Ebbinghaus com sílabas sem sentido, reaprender uma lista um dia depois levava cerca de dois terços do tempo original, e um mês depois, quase quatro quintos. Já o material com significado costuma ser medido pela recordação: no estudo de Roediger e Karpicke de 2006, os estudantes que releram um texto em prosa recordaram 40% das ideias dele uma semana depois, enquanto os que tinham praticado a recordação lembraram 61%.

A curva do esquecimento é real?

Sim. O formato básico, íngreme no início e mais plano depois, se sustenta há bem mais de um século, e a confirmação mais direta é a repetição do experimento de Ebbinghaus feita por Murre e Dros em 2015. O que não se sustenta são as porcentagens exatas que as pessoas associam a ela, que vêm de uma única pessoa aprendendo sílabas sem significado.

É verdade que esquecemos 70% do que aprendemos em 24 horas?

Não. Esse número é aproximadamente 100% menos a economia de 33,7% que Ebbinghaus registrou depois de um dia, e a economia media o quanto mais rápido ele conseguia reaprender uma lista de sílabas sem sentido, e não quanto conseguia recordar. O número não se aplica a tudo o que você aprende, e o quanto você retém depende muito do significado, do sono e da forma como você revisa.

Como vencer a curva do esquecimento?

Combine recuperação e espaçamento. Teste-se em vez de reler (feche o livro e tente lembrar, responda a flashcards, explique em voz alta) e distribua esses testes no tempo, com intervalos maiores para o material que você precisa guardar por mais tempo. Dormir também ajuda. Um bom ponto de partida: um autoteste rápido logo depois de aprender e, em seguida, algumas revisões espaçadas antes de você precisar do material.

Qual é o melhor cronograma de repetição espaçada?

Depende de quando você vai precisar do material. Cepeda e colegas (2008) descobriram que o melhor intervalo antes de uma revisão era de cerca de 3 dias para um teste uma semana depois, e de cerca de 27 dias para um teste quase um ano depois. Intervalos crescentes não superaram de forma confiável os intervalos iguais, então escolha um cronograma que você vá de fato seguir: um plano fixo antes de uma prova, uma caixa de Leitner para flashcards ou um app adaptativo como o Anki para baralhos grandes.

Existe uma fórmula para a curva do esquecimento?

Ebbinghaus ajustou seus dados com b = 100k / ((log t)^c + k), em que b é a porcentagem economizada na reaprendizagem; t, o tempo em minutos (contado a partir de um minuto antes do fim do aprendizado); log, o logaritmo de base 10; k = 1,84; e c = 1,25. A exponencial R = e^(-t/S) que muitos sites mostram não é a equação dele. Wixted e Ebbesen (1991) descobriram que uma função potência simples superou cinco alternativas, entre elas a exponencial e a logarítmica, e Rubin e Wenzel (1996) encontraram as funções logarítmica e potência entre os quatro melhores ajustes. O agendador FSRS do Anki usa uma curva de potência.

Quem descobriu a curva do esquecimento?

Hermann Ebbinghaus (1850-1909), psicólogo alemão, a descreveu em Über das Gedächtnis (1885), traduzido para o inglês em 1913 como Memory: A Contribution to Experimental Psychology. Ele foi o seu próprio e único participante, memorizando e reaprendendo listas de sílabas sem sentido ao longo de vários anos.


Agende sua primeira revisão antes de esquecer

A curva do esquecimento descreve o que acontece com tudo o que você aprende uma vez e nunca mais revisita. Se a sua é íngreme, examine como você aprendeu e revisou o material antes de culpar a sua memória. Ebbinghaus mostrou quão acentuada é a queda inicial, e a pesquisa desde então revelou quanto dela você consegue evitar: faça de cada revisão um teste e espace as revisões de acordo com o tempo durante o qual você precisa lembrar.

Comece pelo que você ler hoje. Destaque com o Glasp as poucas ideias que valem a pena guardar, teste-se antes de fechar a aba e deixe os seus destaques voltarem até você em um e-mail de revisão. A queda mais acentuada vem logo no início, então coloque a sua primeira revisão no calendário agora. A calculadora de repetição espaçada gratuita do Glasp transforma uma data de início e, se você tiver, uma data de prova em datas de revisão que você pode baixar como um arquivo de calendário.

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