Quando o Trabalho Falha em Dar Pertencimento, a Festa Vira Infraestrutura

Thati

Hatched by Thati

May 24, 2026

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A pergunta incômoda: por que tanta gente precisa de uma festa para se sentir em casa?

Há algo profundamente revelador no fato de que, em um país marcado por empregos instáveis, renda imprevisível e identidades fragmentadas, uma celebração popular consiga reunir centenas de milhares de pessoas, mobilizar artistas de várias regiões e gerar milhares de postos de trabalho. A pergunta não é apenas cultural. É política, econômica e até existencial: o que faz uma sociedade parecer habitável quando o trabalho deixou de cumprir essa função?

Durante muito tempo, imaginamos que o emprego seria a grande cola social do mundo moderno. Trabalhar significava receber salário, construir rotina, pertencer a uma classe, planejar o futuro e, de algum modo, ser reconhecido. Mas essa promessa foi se quebrando. Para muita gente, o emprego virou uma sequência de bicos, contratos curtos, plataformas digitais, exigências de flexibilidade e pouca ou nenhuma proteção. O resultado é uma vida em que se trabalha o tempo todo sem jamais se sentir instalado em lugar algum.

É aí que uma festa como o São João, especialmente em um território marcado por migração, mistura e reinvenção como Ceilândia, deixa de ser apenas entretenimento. Ela começa a funcionar como infraestrutura social. Não só produz renda; produz pertencimento. Não só oferece palco; oferece um endereço simbólico. Não só reúne pessoas; reencena a possibilidade de comunidade.

Quando o mercado desorganiza a vida, a cultura pode se tornar o último lugar onde o coletivo ainda faz sentido.


O precariado não é apenas pobre: é alguém sem chão, sem tempo e sem história estável

A palavra precariado costuma ser reduzida a uma questão de renda, mas isso é pouco. A precariedade atual não se limita a ganhar menos. Ela envolve uma erosão mais ampla: instabilidade ocupacional, insegurança material, perda de direitos e enfraquecimento do senso de identidade. É a diferença entre ter um trabalho ruim e viver numa condição em que o trabalho já não organiza sua vida de modo minimamente previsível.

Pense em alguém que alterna aplicativos de entrega, contratos temporários e períodos de desemprego. Essa pessoa não negocia apenas salário. Ela negocia sono, saúde, rotina, alimentação e até relações pessoais. A vida passa a ser calibrada pelo medo de uma renda que some de repente. O problema não é só econômico. É psíquico, porque o futuro deixa de ser um horizonte e vira uma ameaça.

Há algo ainda mais profundo: o precariado também perde a linguagem de representação. Não se vê em partidos, sindicatos, instituições ou narrativas públicas estáveis. Isso é decisivo. Quando um grupo social não encontra expressão política, ele busca sentido em outros lugares: nostalgia, ressentimento, identidades religiosas, tribais ou territoriais, ou ainda em projetos mais emancipatórios, quando há educação, redes e imaginação suficientes.

Podemos entender essa condição por meio de um modelo simples. O trabalho antes cumpria três funções ao mesmo tempo:

  1. Material: gerava renda.
  2. Social: criava vínculos, rotina e reconhecimento.
  3. Política: ancorava direitos e representação.

Hoje, para uma parte crescente da população, o trabalho continua exigindo energia nas três dimensões, mas entrega cada vez menos em todas elas. O salário é volátil, o vínculo é frágil e a voz pública é baixa. É uma troca desigual e, em muitos casos, humilhante.


O Estado como inimigo não é uma metáfora contra o governo, mas contra a vida condicionada

Quando se diz que o principal inimigo do precariado é o Estado, a frase provoca porque parece exagerada. Mas o ponto é mais sofisticado: o problema não é apenas o governo em abstrato, e sim o conjunto de instituições que organiza a vida pela condicionalidade. Benefícios que punem, subsídios que excluem, regras que controlam os corpos, sistemas que exigem prova permanente de merecimento. O Estado, nesse sentido, pode deixar de ser uma proteção e virar um mecanismo de triagem moral.

Imagine uma pessoa em situação de instabilidade que depende de auxílio, mas precisa provar repetidamente que merece ajuda, comparecer a filas, cumprir exigências confusas e aceitar qualquer trabalho oferecido, mesmo que seja degradante. O auxílio deixa de ser uma base e se torna um dispositivo disciplinar. Em vez de reduzir a insegurança, ele a administra. Em vez de emancipar, ele subordina.

Aqui há uma tensão central do nosso tempo: a sociedade pede flexibilidade, mas distribui risco de forma rigidamente desigual. Empresas querem mão de obra adaptável. Governos querem beneficiários comportados. Plataformas querem trabalhadores disponíveis. No entanto, pouca gente quer arcar com o custo dessa elasticidade permanente. A flexibilidade vira uma virtude para uns e uma sentença para outros.

Não é liberdade quando só uma parte da sociedade pode escolher a própria flexibilidade, enquanto a maioria apenas absorve a instabilidade.

A resposta não precisa ser puramente assistencial nem puramente moral. Há uma ideia poderosa aqui: se o problema é a vida organizada pela insegurança, então a solução não pode ser apenas pedir esforço individual. É preciso criar pisos de segurança incondicionais. Uma renda básica universal aparece justamente como uma tentativa de deslocar o eixo da cidadania: em vez de condicionar a sobrevivência à obediência, garantir a sobrevivência como direito.

Isso é importante porque a liberdade real exige mais do que discurso. Exige margem de manobra. Quem vive com medo de perder a renda amanhã não negocia com o mundo em pé de igualdade. A precariedade reduz a imaginação política antes mesmo de reduzir a renda.


Por que a festa importa quando a vida está fragmentada

É fácil tratar uma festa popular como um intervalo inocente na economia da sobrevivência. Mas eventos como o São João do Cerrado mostram algo mais interessante: a cultura também produz infraestrutura. Ela cria circulação de dinheiro, sim, mas também produz circulação de memória, linguagem e autoestima. Em cidades atravessadas por migração, como Ceilândia, isso tem um peso enorme.

Quando uma comunidade celebra suas raízes, ela não está apenas olhando para trás. Está reconstruindo um senso de lugar. Para quem saiu de casa, cruzou o país, mudou de bairro várias vezes ou vive sem a estabilidade que chamávamos de vida adulta, a festa faz algo raro: oferece um espaço em que a pertença não depende de contrato, diploma ou patrimônio.

O dado econômico ajuda a entender a dimensão material disso. Milhares de empregos diretos e indiretos, milhares de artistas contratados, horas e horas de programação. Mas o mais importante é que esses números revelam uma verdade que muitas políticas públicas ignoram: a economia não é apenas produção industrial ou tecnologia financeira; também é mobilização de afeto, presença e circulação local.

Pense em três efeitos simultâneos de uma grande festa:

  1. Efeito econômico: hotel, comida, transporte, técnica, cenografia, venda informal, cachês.
  2. Efeito simbólico: reconhecimento de uma identidade regional, reparação de invisibilidades.
  3. Efeito político: criação de um espaço comum onde diferentes grupos podem coexistir sem precisarem se explicar o tempo todo.

Isso é crucial porque o precariado vive justamente o contrário: dispersão. Trabalha sozinho, por tarefa, em horários quebrados, muitas vezes sem colegas, sem sindicato e sem memória coletiva. A festa, por algumas horas, reconstrói o oposto da fragmentação. Ela reúne corpos, sincroniza ritmos e devolve um senso de tempo compartilhado.

Em uma sociedade de trabalho atomizado, uma praça cheia pode ser mais do que lazer. Pode ser uma experiência de recomposição social.


O que a nostalgia, a raiva e a esperança disputam dentro da mesma classe

Uma das ideias mais úteis para entender o precariado é perceber que ele não é politicamente homogêneo. Há, ao menos, três grandes impulsos em disputa dentro dele.

O primeiro é o impulso da perda: pessoas que sentem ter sido expulsas de um passado em que o trabalho parecia mais legível, os direitos mais claros e a comunidade mais coesa. Quando esse sentimento domina, cresce a disposição para soluções autoritárias e identitárias.

O segundo é o impulso do desenraizamento: imigrantes, minorias e pessoas que se sentem fora do “centro” da sociedade. Aqui, a dor principal não é só material, mas de pertencimento. A pergunta é: onde é a minha casa?

O terceiro é o impulso do futuro frustrado: pessoas mais escolarizadas, que investiram em educação esperando um mundo de oportunidades e descobriram que o prêmio prometido talvez nunca venha. Esse grupo tende a buscar novas linguagens de emancipação, ciência, cultura pública e instituições mais justas.

Esses três impulsos não são apenas emoções. São respostas diferentes a uma mesma ferida: a quebra da promessa moderna de que esforço viraria estabilidade. Quando essa promessa se rompe, cada grupo narra a perda de um jeito. Um olha para trás. Outro tenta pertencer ao presente. Outro exige um amanhã.

A festa popular é interessante exatamente porque conversa com esses três impulsos ao mesmo tempo. Ela oferece memória aos que querem origem, acolhimento aos que querem casa e futuro aos que querem continuar criando. Não resolve a precariedade, mas mostra que a comunidade ainda pode ser mais forte do que a dispersão.


A verdadeira disputa: quem organiza a vida quando o emprego já não organiza?

Esse é o núcleo do problema. No século XX, o emprego formal funcionou como um organizador social. Hoje, esse papel foi corroído pela tecnologia, pela fragmentação produtiva e por políticas que pedem adaptação sem oferecer proteção. Se o trabalho perdeu capacidade de estruturar a existência, alguém ou algo vai preencher o vazio.

Pode ser o Estado, por meio de vigilância e condicionalidades. Pode ser a plataforma, por meio de algoritmos. Pode ser o mercado, por meio do medo. Ou pode ser a cultura, por meio de pertencimento e reconhecimento.

A diferença entre esses organizadores é gigantesca. O mercado tende a transformar todo vínculo em risco. O Estado condicional tende a transformar direito em teste. A plataforma tende a transformar tempo em tarefa. Já a cultura, quando é viva de verdade, pode transformar diferença em co-presença.

Isso não significa romantizar festa ou tradição. Nenhuma celebração substitui política habitacional, proteção social, educação pública ou regulação do trabalho digital. Mas a cultura revela algo que a tecnocracia costuma esquecer: as pessoas não vivem apenas de renda; vivem de narrativa, rotina, memória e lugar.

Se quisermos enfrentar a precariedade com seriedade, precisamos tratar eventos culturais populares não como gasto periférico, mas como parte de uma ecologia de cidadania. Eles podem reduzir isolamento, estimular economia local, fortalecer redes informais e produzir autoestima coletiva. Em territórios marcados por deslocamento, isso é tão estratégico quanto qualquer indicador macroeconômico.


Key Takeaways

  1. Precariedade não é só falta de dinheiro. É perda de previsibilidade, identidade e representação política.

  2. Flexibilidade sem proteção é uma forma de desigualdade. A sociedade cobra adaptação de todos, mas distribui segurança para poucos.

  3. O Estado pode proteger ou condicionar. Quando benefícios e políticas criam dependência humilhante, eles agravam o problema que deveriam resolver.

  4. Cultura é infraestrutura social. Grandes festas populares não são apenas lazer; elas criam emprego, pertencimento e coesão.

  5. Pertencimento é uma política econômica. Em tempos de trabalho fragmentado, comunidades que reconstroem memória e presença coletiva ganham uma vantagem real sobre o isolamento.


Conclusão: talvez o oposto da precariedade não seja o emprego, mas a pertença

A grande ilusão do nosso tempo é acreditar que bastaria “melhorar o mercado de trabalho” para restaurar a vida social. Mas a crise é mais profunda. O problema não é somente que os empregos são ruins. É que eles já não conseguem, sozinhos, produzir uma sensação de mundo compartilhado.

É por isso que uma festa em Ceilândia diz tanto sobre o presente. Ela mostra que, quando o trabalho fragmenta e o Estado condiciona, as pessoas ainda procuram formas de se reunir, lembrar e celebrar. Em outras palavras, procuram um chão simbólico para continuar vivendo.

Talvez devamos inverter a pergunta habitual. Em vez de perguntar como levar mais gente ao mercado, deveríamos perguntar: que instituições conseguem fazer as pessoas se sentirem menos descartáveis? Às vezes, a resposta começa com emprego, sim. Mas também pode começar com uma praça cheia, um palco aceso, uma música que reconhece a origem de quem chegou de longe e a coragem de quem continua.

A precariedade nos isola. A pertença nos devolve ao mundo. E, em um tempo em que tanta coisa empurra as pessoas para a solidão econômica e política, isso pode ser o começo de uma verdadeira reconstrução social.

Sources

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