Do Eu Produto ao Torcedor Criador: Como o Futebol Está Reprogramando a Competição Neoliberal
Hatched by Thati
Aug 27, 2026
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E se torcer também tivesse virado um trabalho?
E se a transformação mais profunda do futebol brasileiro não estivesse acontecendo dentro do campo, mas dentro da identidade de quem o acompanha? Hoje, alguém pode ser considerado um grande torcedor sem jamais pisar em um estádio. Pode acompanhar partidas pelo celular, comentar lances em tempo real, produzir vídeos, participar de comunidades, assinar conteúdos e transformar sua paixão em audiência. O torcer deixou de ser apenas uma prática de presença. Tornou-se uma forma de atuação pública.
À primeira vista, isso parece apenas uma mudança tecnológica. A televisão perdeu exclusividade, as redes sociais ganharam centralidade e novos criadores passaram a disputar a atenção que antes pertencia às emissoras. Mas há algo mais profundo em jogo. O futebol está se tornando um laboratório para observar uma transformação maior da vida social: a passagem do indivíduo que possui uma identidade para o indivíduo que precisa performar, atualizar e monetizar a própria identidade.
Essa mudança conecta dois fenômenos que costumam ser analisados separadamente. De um lado, a lógica neoliberal transforma a pessoa em uma espécie de empresa, exigindo competitividade, visibilidade e capacidade de autopromoção. De outro, o futebol digital amplia as maneiras de participar, permitindo que torcedores antes afastados dos estádios encontrem novas formas de pertencimento. A mesma plataforma que democratiza a expressão também converte a paixão em conteúdo, a comunidade em audiência e a identidade em ativo.
A questão decisiva, portanto, não é saber se o futebol está mais digital. É perguntar: quando a paixão se torna uma performance pública, o que ainda pertence ao torcedor e o que já pertence ao mercado?
A pessoa como produto e o torcedor como marca
A economia neoliberal não opera apenas por meio de leis, empresas ou políticas de Estado. Ela também se instala na maneira como as pessoas compreendem a si mesmas. O indivíduo passa a ser convidado a administrar a própria vida como um negócio: desenvolver competências, construir reputação, ampliar conexões e manter uma imagem competitiva. Não basta fazer algo bem. É preciso tornar esse desempenho visível e convertê-lo em valor.
Essa lógica produz uma mudança sutil na ideia de identidade. Em vez de ser algo relativamente estável, recebido por meio de vínculos sociais e experiências compartilhadas, a identidade passa a ser tratada como um projeto permanente. Cada pessoa precisa perguntar: como sou percebida? O que ofereço? Qual é meu diferencial? Como me torno relevante em meio a milhares de outras pessoas que também disputam atenção?
O torcedor digital entra nesse cenário como uma figura exemplar. Ele não apenas assiste ao jogo. Ele comenta, interpreta, reage, faz memes, grava vídeos, participa de debates e constrói uma linguagem própria. Sua relação com o clube pode ser intensa mesmo sem a presença física no estádio. Para 51% dos torcedores, é possível ser um grande fã sem frequentar as arquibancadas. Entre pessoas de 18 a 24 anos, esse número chega a 64%.
Essa estatística não significa necessariamente uma perda de paixão. Ela indica uma mudança na infraestrutura do pertencimento. Antes, a intensidade do torcer era medida por gestos como ir ao estádio, comprar uma camisa, acompanhar o rádio ou conhecer a história do clube. Agora, também pode ser medida pela frequência das publicações, pela velocidade das reações, pela capacidade de produzir uma leitura original ou pelo tamanho da comunidade reunida ao redor de um perfil.
O torcedor não desaparece. Ele ganha ferramentas novas. Porém, junto com essas ferramentas surge uma pressão nova: não basta sentir; é preciso demonstrar que se sente.
Uma pessoa pode assistir a uma partida em silêncio e viver uma experiência profundamente significativa. Mas essa experiência, por não produzir imagens, comentários ou dados, tem pouco valor para as plataformas. O algoritmo não consegue distribuir uma emoção privada. Ele distribui aquilo que pode ser registrado, classificado e repetido. A paixão começa a ser reorganizada de acordo com sua capacidade de gerar circulação.
Na era das plataformas, a pergunta não é apenas “de que time você é?”, mas também “que tipo de conteúdo sua paixão consegue produzir?”
O estádio era uma arquibancada; a internet é uma arena
A migração do torcer para o ambiente digital amplia o acesso, mas também altera a natureza da competição. O estádio possui limites concretos: número de lugares, distância geográfica, preço dos ingressos e horário da partida. A internet remove várias dessas barreiras. Uma pessoa pode acompanhar o clube de outra cidade, interagir com torcedores de regiões diferentes e encontrar uma comunidade mesmo quando não tem acesso ao espaço físico tradicional.
Esse é um ganho social importante. O futebol se torna mais inclusivo em determinadas dimensões. Mulheres, pessoas com deficiência, torcedores que vivem longe de seus clubes e jovens que não podem pagar uma ida frequente ao estádio podem criar formas legítimas de participação. O pertencimento deixa de depender exclusivamente da presença corporal em um território.
Mas a internet não elimina a arquibancada. Ela a transforma em uma arena sem fim, na qual todos podem falar e quase todos precisam disputar atenção. O torcedor já não compete apenas com a torcida adversária. Compete com comentaristas, influenciadores, jornalistas, clubes, marcas, memes, notícias urgentes e milhares de outros criadores. Cada opinião é potencialmente uma candidatura à visibilidade.
É aqui que a lógica neoliberal se encontra com a cultura do futebol. Se a competição se torna uma norma geral de conduta, até a paixão pode ser organizada como uma disputa por reconhecimento. Quem sofre mais? Quem conhece mais a história do clube? Quem antecipa a escalação? Quem tem a crítica mais contundente? Quem cria o meme que todos vão compartilhar? Quem consegue transformar uma derrota em milhões de visualizações?
O torcedor passa a operar com uma espécie de currículo afetivo. Seu valor dentro da comunidade depende de sinais de autenticidade, conhecimento e presença. O problema não é a existência desses sinais. Comunidades sempre criaram maneiras de reconhecer os mais dedicados. A novidade está no fato de que esses sinais agora podem ser quantificados, comparados e monetizados.
Curtidas, seguidores, visualizações e comentários funcionam como uma moeda social. Eles parecem medir a qualidade da participação, embora frequentemente meçam apenas a capacidade de capturar atenção. Um vídeo superficial pode alcançar mais pessoas do que uma análise cuidadosa. Uma indignação exagerada pode circular mais do que uma observação equilibrada. A plataforma tende a premiar a reação que produz movimento, não necessariamente a interpretação que produz compreensão.
Por isso, o futebol digital oferece uma contradição central: ele democratiza a entrada na conversa, mas transforma a conversa em mercado.
A paixão como infraestrutura de comunidade
Seria um erro reduzir esse fenômeno à mercantilização. O futebol continua sendo uma das principais formas de identidade brasileira para 77% dos torcedores. Essa força não pode ser explicada apenas pela publicidade ou pela indústria do entretenimento. O futebol oferece uma gramática comum para pessoas que, em muitos outros contextos, não teriam motivos para conversar.
Uma partida organiza o tempo, cria expectativa, produz memória e permite que desconhecidos reconheçam uns nos outros uma experiência compartilhada. O gol não é apenas um evento esportivo. É um acontecimento capaz de reunir corpos, mensagens, lembranças familiares, rivalidades e esperanças. Mesmo quando o jogo é acompanhado por uma tela, a emoção pode ser coletiva.
O ambiente digital não destrói necessariamente essa dimensão. Em alguns casos, ele a expande. Um torcedor que assiste sozinho pode encontrar, durante a partida, milhares de pessoas que sentem algo parecido. Um criador pode traduzir uma emoção difícil de nomear. Um podcast pode manter a conversa viva entre uma rodada e outra. Uma comunidade pode dar voz a experiências que os meios tradicionais ignoravam.
Os dados sobre novos hábitos apontam para isso. Para 43% dos torcedores, o futebol é mais divertido nas redes sociais do que na televisão. Quase metade já vê os criadores como agentes que estão reinventando o torcer. Entre os jovens, a abertura para novas ligas e formatos é especialmente forte: 57% das pessoas de 18 a 24 anos acreditam que o futebol pode ser reinventado.
Esses números não revelam apenas uma preferência por telas menores ou conteúdos mais rápidos. Eles revelam uma busca por participação, e não somente por transmissão. A televisão oferece um produto pronto. As redes oferecem a sensação de que o torcedor pode interferir na forma como o acontecimento é interpretado, discutido e lembrado.
Contudo, participação não é sinônimo de autonomia. Uma plataforma pode dar voz ao torcedor e, ao mesmo tempo, determinar quais vozes serão ouvidas. Pode estimular comunidades e, simultaneamente, extrair dados de seus vínculos. Pode aproximar pessoas e organizar essa aproximação em torno de métricas comerciais.
A pergunta passa a ser: quem controla a infraestrutura da comunidade? Se os torcedores produzem a maior parte da energia, das histórias e das conversas, por que o valor econômico se concentra nas plataformas, nos clubes e nos anunciantes? A paixão é criada coletivamente, mas sua monetização tende a ser centralizada.
Do torcedor consumidor ao torcedor empreendedor
A figura emergente não é apenas o torcedor consumidor, que compra ingressos, camisas ou assinaturas. É o torcedor empreendedor de si mesmo. Ele transforma sua relação com o clube em uma proposta de valor. Pode oferecer humor, informação, pertencimento, análise tática, nostalgia ou indignação. Seu produto não é necessariamente uma mercadoria física. Muitas vezes, é a própria perspectiva.
Esse modelo tem aspectos criativos e libertadores. Pessoas sem acesso aos meios tradicionais podem construir público. Um jovem de uma cidade distante pode desenvolver uma comunidade nacional. Uma torcedora pode falar sobre futebol a partir de uma experiência que nunca seria representada em uma mesa esportiva convencional. Um criador pode experimentar formatos e linguagens que um canal de televisão jamais arriscaria.
Mas a liberdade vem acompanhada de uma exigência: manter a produção constante. O criador não pode apenas ter uma boa ideia. Precisa alimentar o fluxo, acompanhar tendências, responder ao público, compreender métricas e ajustar sua personalidade ao desempenho do conteúdo. A paixão passa a obedecer à lógica da produtividade.
Essa é a forma mais íntima do neoliberalismo: não a ordem explícita de um chefe, mas a internalização da cobrança. O indivíduo se vigia, se compara e se aperfeiçoa continuamente. O descanso parece perda de oportunidade. O silêncio parece desaparecimento. Uma opinião privada parece um recurso desperdiçado.
No futebol, isso pode criar uma escalada de intensidade. Para permanecer relevante, o criador precisa reagir mais rápido, tomar posições mais fortes e produzir conflitos mais nítidos. A nuance tem dificuldade de competir com o escândalo. A dúvida tem menos alcance que a certeza. O torcedor é incentivado a transformar cada partida em julgamento moral e cada jogador em herói ou fracasso absoluto.
O resultado é uma comunidade mais ativa, mas nem sempre mais reflexiva. Quanto mais o pertencimento depende de performance, mais difícil se torna admitir ambivalências. Uma pessoa pode gostar do clube e criticar sua diretoria. Pode reconhecer o mérito do rival. Pode mudar de opinião sobre um jogador. Porém, a identidade performática exige coerência visível, e a coerência visível costuma se tornar rigidez.
Um torcedor que construiu sua audiência com base em uma posição precisa defendê-la mesmo quando os fatos mudam. Sua reputação está vinculada à repetição de uma persona. Assim, o mercado da atenção pode transformar a identidade em uma prisão: aquilo que antes era uma forma de expressão passa a controlar o que a pessoa pode dizer.
Um modelo para preservar a paixão sem abandonar a crítica
Como participar dessa nova cultura sem aceitar que toda experiência precise virar mercadoria? Uma resposta possível é separar quatro camadas que costumam ser confundidas: pertencimento, expressão, audiência e monetização.
O pertencimento responde à pergunta: de que comunidade faço parte? Ele pode existir sem público e sem retorno financeiro. É a dimensão mais antiga e talvez mais importante do torcer. Uma criança que escolhe um clube por influência da família já participa de uma história, mesmo antes de compreender tática, mercado ou celebridade.
A expressão responde à pergunta: como torno minha experiência comunicável? Pode ser por meio de um comentário, uma conversa, um vídeo, uma música ou uma imagem. Expressar é compartilhar sentido, não necessariamente buscar desempenho.
A audiência responde à pergunta: quantas pessoas estão prestando atenção? Essa camada é útil, mas perigosa quando se transforma em medida absoluta de valor. Um conteúdo pode alcançar milhares de pessoas e não fortalecer nenhum vínculo duradouro. Outro pode ser visto por poucos e alterar profundamente a vida de uma comunidade pequena.
A monetização responde à pergunta: como essa atenção se converte em renda? Criadores precisam ser remunerados, e não há nada de errado em ganhar dinheiro com trabalho criativo. O problema aparece quando a monetização invade todas as camadas anteriores e passa a definir o que merece ser sentido, expresso ou compartilhado.
Esse modelo permite uma regra prática: não confundir visibilidade com pertencimento. Um torcedor não é menos legítimo porque publica pouco. Uma comunidade não é mais saudável porque possui mais seguidores. Um debate não é mais valioso porque gera mais conflito.
Para clubes, marcas e criadores, essa distinção também é estratégica. Quem tratar o torcedor apenas como consumidor perderá a dimensão afetiva da relação. Quem tratá-lo apenas como produtor gratuito de conteúdo produzirá ressentimento. O futuro mais sólido será construído por organizações que reconheçam o torcedor como participante, remunerem adequadamente o trabalho criativo e criem espaços em que a comunidade não seja reduzida a dados de engajamento.
Principais aprendizados
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Separe paixão de performance: reserve momentos para acompanhar o futebol sem publicar, comentar ou medir a reação dos outros. Uma experiência não precisa ser visível para ser real.
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Avalie comunidades por qualidade de vínculo, não apenas por tamanho: observe se há escuta, memória compartilhada, diversidade de vozes e capacidade de discordar sem destruir o pertencimento.
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Use métricas como instrumentos, não como identidade: seguidores e visualizações podem orientar decisões, mas não devem determinar seu valor como torcedor ou criador.
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Crie formatos de participação além do consumo: debates, grupos de leitura sobre a história dos clubes, encontros locais e projetos de memória podem fortalecer o futebol como comunidade, não apenas como conteúdo.
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Exija transparência na monetização: quando uma paixão gera renda para plataformas, clubes ou criadores, é importante saber quem produz o valor, quem captura a receita e quais relações estão sendo exploradas.
A próxima disputa não será apenas pelo jogo
O futebol brasileiro está entrando em uma fase na qual a partida é apenas o centro de um ecossistema muito maior. Antes, o espetáculo principal acontecia no gramado e os torcedores o comentavam. Agora, o jogo continua sendo essencial, mas sua experiência é continuamente reeditada por criadores, comunidades, algoritmos e marcas.
Isso pode tornar o torcer mais plural, inventivo e acessível. Também pode submetê-lo inteiramente à lógica da competição por atenção. A mesma cultura que permite a um jovem criar uma voz própria pode obrigá-lo a transformar cada emoção em conteúdo. A mesma rede que aproxima torcedores pode converter suas relações em matéria prima para publicidade.
O desafio não é voltar a um passado sem tecnologia. Tampouco é rejeitar os criadores ou idealizar o estádio como se ele fosse um espaço puro de comunidade. O desafio é construir uma relação mais consciente com as ferramentas que reorganizam o pertencimento.
A pergunta decisiva talvez não seja quem vencerá o próximo campeonato, nem qual formato substituirá a televisão. É esta: queremos um futebol em que cada torcedor precise se vender para provar que pertence, ou um futebol em que a tecnologia amplie a comunidade sem transformar toda paixão em produto?
A resposta dependerá de escolhas pequenas e cotidianas. O que compartilhamos. O que recompensamos. Que tipo de criador escutamos. Que conversas mantemos mesmo quando não geram audiência. No fim, o futuro do torcer não será definido apenas pelas plataformas. Será definido pelo valor que decidirmos atribuir àquilo que não pode ser medido: a lealdade silenciosa, a memória comum e a alegria de pertencer sem precisar estar sempre em exibição.
Sources
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