O Carnaval e o Algoritmo Disputam a Mesma Coisa: Nossa Atenção

Thati

Hatched by Thati

Aug 28, 2026

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Uma multidão de 3,5 milhões de turistas pode produzir bilhões para uma economia. Uma sequência personalizada de vídeos pode produzir algo muito mais íntimo: a sensação de que, por alguns segundos, o mundo inteiro foi organizado para capturar você. O que há em comum entre um Carnaval que atrai pessoas de aeroportos e portos e uma plataforma que prevê qual imagem fará alguém continuar deslizando a tela?

Ambos competem pela atenção. Mas há uma diferença decisiva: um transforma a atenção em experiência compartilhada; o outro transforma a atenção em comportamento previsível.

Essa distinção ajuda a compreender uma questão que costuma ser tratada de maneira superficial: o problema não é simplesmente prestar atenção demais ou de menos. É descobrir quem está desenhando o objeto da nossa atenção, para qual finalidade e com que efeito sobre a nossa capacidade de escolher.

A economia invisível por trás de toda experiência

O Carnaval da Bahia é, entre outras coisas, uma gigantesca infraestrutura de atenção. Milhões de pessoas decidem deslocar o corpo, gastar dinheiro, reorganizar agendas e aceitar o desconforto de multidões para participar de algo que só existe plenamente quando é vivido em conjunto. O resultado econômico é expressivo: R$ 7 bilhões movimentados em um único período, além do crescimento de 16% no número de turistas internacionais.

Mas o dinheiro é apenas a camada mais visível dessa operação. Antes de um visitante comprar uma passagem, reservar um quarto ou consumir em um restaurante, alguma coisa capturou sua imaginação. Uma música, uma memória, uma imagem da festa, o relato de um amigo, a promessa de pertencimento. O evento converte atenção em deslocamento, deslocamento em encontro e encontro em valor econômico.

A plataforma digital faz uma operação semelhante, mas em escala microscópica. Em vez de mobilizar milhões de corpos para um espaço comum, mobiliza a atenção de cada indivíduo dentro de um espaço privado. Pesquisas com usuários de vídeos curtos mostram que o conteúdo selecionado por algoritmo ativa com intensidade especial a área tegmental ventral, uma região ligada ao início do circuito de busca e recompensa.

A diferença não está em haver prazer nos dois casos. O Carnaval também oferece estímulos intensos, surpresa, música, expectativa e recompensa social. A diferença está na arquitetura da experiência. No Carnaval, a atenção é atraída para uma situação relativamente pública, participativa e imprevisível. Nos vídeos personalizados, ela é capturada por uma máquina que aprende continuamente quais estímulos aumentam a probabilidade de permanência.

A pergunta mais importante não é “o que chamou minha atenção?”, mas “que tipo de mundo é construído quando aquilo que chama minha atenção é otimizado por alguém?”

Atenção compartilhada e atenção capturada

Podemos distinguir duas formas de atenção: a atenção compartilhada e a atenção capturada.

A atenção compartilhada é aquela que reúne pessoas em torno de uma experiência comum. Uma praça, um bloco, um trio elétrico, uma partida, uma celebração religiosa ou uma conversa longa. Ela não elimina a individualidade, mas cria um campo de referências comuns. Depois do evento, as pessoas carregam histórias que podem ser contadas umas às outras: “você viu aquilo?”, “lembra daquela música?”, “quando a multidão virou a esquina?”.

A atenção capturada funciona de maneira diferente. Ela não depende de uma comunidade reunida, mas de uma cadeia de estímulos ajustados ao perfil de cada usuário. Cada pessoa recebe uma sequência distinta, desenhada para reduzir a chance de interrupção. Não é necessário desejar profundamente o próximo vídeo. Basta que o sistema produza curiosidade suficiente para que o dedo continue se movendo.

Essa diferença pode ser expressa por um modelo simples. A atenção compartilhada tende a gerar memória comum, vínculo e participação. A atenção capturada tende a gerar repetição, previsão e dependência do próximo estímulo. As duas podem ser prazerosas, intensas e economicamente valiosas. Porém, produzem formas muito diferentes de vida social.

Imagine duas noites. Na primeira, você passa horas em uma festa com amigos. Há excesso de estímulos, mas também há presença física, negociação, cansaço, acaso e a necessidade de responder ao ambiente. Na segunda, você passa o mesmo tempo assistindo a vídeos curtos. Há novidade constante, mas quase nenhum compromisso com o que veio antes ou com o que virá depois. Uma noite deixa um conjunto de cenas e relações. A outra pode deixar apenas a impressão de que o tempo desapareceu.

Isso não significa que uma experiência seja moralmente pura e a outra seja sempre nociva. Festas podem ser exaustivas, caras e excludentes. Plataformas digitais podem ensinar, conectar pessoas e oferecer diversão legítima. O ponto é mais preciso: a forma como a atenção é organizada altera o tipo de valor que ela produz.

O paradoxo da personalização: quanto mais adequado, menos escolhido

A personalização costuma ser apresentada como um serviço. Em vez de procurar entre milhões de conteúdos, o usuário recebe aquilo que provavelmente deseja. Esse ganho de conveniência é real. O problema começa quando confundimos conveniência com liberdade.

Uma escolha é livre não apenas porque podemos clicar. Ela é livre quando conseguimos perceber alternativas relevantes, tolerar algum esforço e interromper uma sequência que nos conduz automaticamente. Um algoritmo extremamente eficiente pode diminuir justamente essas condições. Ele entrega algo tão adequado ao nosso padrão anterior que nos torna menos propensos a encontrar o inesperado.

Há uma ironia nesse processo. Quanto melhor o sistema conhece nossos hábitos, mais natural parece o próximo estímulo. E quanto mais natural parece o estímulo, menos percebemos que estamos sendo conduzidos. A persuasão mais poderosa não se apresenta como pressão. Apresenta-se como conforto.

Pense em um guia turístico que conhece cada uma de suas preferências. Ele sabe que você gosta de música, comida apimentada e ruas movimentadas. Ao longo de uma viagem, leva você apenas a lugares compatíveis com esse perfil. A viagem pode ser agradável, mas também pode excluir tudo aquilo que você ainda não sabe que deseja. Você não se perde, mas também não descobre.

É exatamente aí que a experiência coletiva do Carnaval oferece uma imagem alternativa. Uma festa de massa possui curadoria, publicidade e interesses comerciais, mas não pode controlar completamente a experiência de cada participante. A pessoa precisa atravessar distâncias, lidar com o clima, encontrar desconhecidos, escolher caminhos e ser surpreendida por algo que não estava na tela inicial. A atenção é atraída, mas não inteiramente pré determinada.

A surpresa, nesse caso, não é um defeito da experiência. É uma de suas fontes de vitalidade. Uma vida composta apenas por estímulos que já provaram funcionar conosco torna-se eficiente, mas intelectualmente estreita.

Do consumo de estímulos à produção de futuro

A questão se torna ainda mais importante porque a atenção não é apenas um recurso presente. Ela é também o material com que construímos o futuro.

Aquilo a que prestamos atenção repetidamente molda nossas expectativas, nossos desejos e nossa percepção do que é normal. Se passamos horas em sequências que recompensam o choque, a novidade e a resposta imediata, atividades lentas começam a parecer defeituosas. Ler um texto difícil, aprender uma habilidade, escutar alguém sem interromper ou sustentar uma pergunta sem resposta pode parecer insuportável, não porque tenha perdido valor, mas porque deixou de competir em condições iguais.

O circuito de busca e recompensa é particularmente relevante nesse ponto. A promessa do próximo estímulo pode ser mais mobilizadora do que o prazer do estímulo atual. Por isso, o usuário não está apenas consumindo vídeos. Está sendo treinado a buscar continuamente. A plataforma não precisa oferecer satisfação plena. Basta preservar uma pequena margem de expectativa.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que o uso pode continuar mesmo quando o conteúdo já não diverte muito. O objeto principal da atenção deixa de ser o vídeo e passa a ser a possibilidade do próximo vídeo. É uma mudança sutil, mas profunda: o desejo abandona o presente e se instala na antecipação.

O Carnaval também trabalha com antecipação. A viagem é planejada, a fantasia é escolhida, a música é esperada, o encontro é imaginado. Porém, sua recompensa depende da participação em um mundo que não pode ser totalmente reduzido à previsão. Há uma diferença entre esperar uma experiência e ser mantido em estado de espera.

Na primeira situação, a antecipação conduz a um acontecimento. Na segunda, a antecipação pode se tornar o próprio produto.

Essa distinção oferece um critério útil para avaliar qualquer ambiente de mídia, entretenimento ou consumo: depois de usar esse ambiente, estou mais disposto a participar do mundo ou apenas mais preparado para buscar outro estímulo dentro dele?

Um novo critério: a taxa de conversão da atenção em vida

Costumamos medir o sucesso digital por visualizações, tempo de permanência e frequência de retorno. Eventos econômicos são avaliados por visitantes, receita e ocupação. Essas métricas são úteis, mas insuficientes. Elas medem quanto de atenção foi atraído, não o que essa atenção fez com a vida das pessoas.

Podemos propor uma métrica mais humana: a taxa de conversão da atenção em vida. Ela pergunta quanto da atenção investida se transforma em memória, competência, vínculo, participação ou compreensão.

Uma conversa de duas horas pode ter baixa eficiência em termos de informação transmitida, mas alta conversão em intimidade. Uma aula difícil pode gerar poucos momentos de prazer, mas alta conversão em capacidade. Um bloco de Carnaval pode consumir dinheiro e energia, mas converter a atenção em pertencimento e lembrança coletiva. Já centenas de vídeos podem produzir muita estimulação e pouca sedimentação.

O objetivo não é eliminar o entretenimento rápido. Descanso também é uma função legítima da atenção. O problema aparece quando uma forma de descanso ocupa tanto espaço que impede as atividades que dão espessura à existência. Uma dieta composta apenas de sobremesa não é ruim porque toda sobremesa é tóxica. É ruim porque uma dieta precisa de estrutura, contraste e nutrientes diferentes.

A mesma lógica vale para a atenção. Precisamos de intensidade, mas também de duração. Precisamos de novidade, mas também de repetição significativa. Precisamos de experiências individuais, mas também de ocasiões em que nossa atenção se torne comum com a de outras pessoas.

Como recuperar a autoria da atenção

Recuperar a atenção não exige abandonar a tecnologia nem transformar toda tela em inimiga. Exige criar fricção onde o ambiente foi desenhado para removê-la.

A primeira prática é separar intenção de disponibilidade. Antes de abrir uma plataforma, formule uma frase concreta: “vou procurar uma informação específica”, “vou responder a uma pessoa” ou “vou assistir a algo por quinze minutos”. A frase não impede o desvio, mas torna o desvio visível. Sem uma intenção anterior, qualquer estímulo pode se apresentar como destino.

A segunda é proteger blocos de atenção sem recomendação automática. Leia um capítulo escolhido por você. Caminhe sem áudio. Assista a um filme inteiro. Participe de uma atividade presencial sem registrar cada momento. O objetivo é reaprender a permanecer em experiências que não precisam disputar sua atenção a cada segundo.

A terceira é buscar regularmente ambientes de atenção compartilhada. Uma refeição sem celulares, uma aula presencial, um ensaio musical, um trabalho voluntário ou uma celebração popular funcionam como antídotos sociais contra a fragmentação. Eles lembram que atenção não é apenas um bem privado. É também uma maneira de estar disponível para outras pessoas.

A quarta é observar o efeito posterior, não apenas o prazer imediato. Depois de uma sessão de vídeos, você se sente renovado, informado, conectado ou apenas inquieto e pronto para continuar? Essa pergunta muda o foco do estímulo para a consequência.

Key Takeaways

  • Diferencie atração de captura: ser interessado por algo não significa necessariamente ter escolhido permanecer ali.
  • Avalie a conversão da atenção: pergunte se o tempo investido gerou memória, vínculo, habilidade, compreensão ou participação.
  • Introduza fricção deliberada: desative a reprodução automática, estabeleça limites de tempo e mantenha o celular fora de ambientes destinados à concentração.
  • Cultive atenção compartilhada: reserve espaço para experiências presenciais, coletivas e imprevisíveis, nas quais ninguém controla completamente o que acontecerá.
  • Preserve o direito de se surpreender: consuma também conteúdos e experiências que não foram selecionados apenas com base no seu comportamento passado.

No fundo, a disputa contemporânea não é entre Carnaval e tela, entre prazer e disciplina, nem entre tecnologia e nostalgia. É uma disputa sobre quem transforma nossa atenção em quê.

Uma festa pode transformar atenção em circulação econômica, encontro e memória. Um algoritmo pode transformá-la em permanência mensurável e previsão comercial. Ambos sabem que a atenção tem valor. A diferença é que, em um caso, o valor costuma crescer quando as pessoas se encontram no mundo. No outro, pode crescer quando elas permanecem disponíveis para o próximo estímulo.

Talvez a pergunta decisiva para os próximos anos não seja quanto tempo passamos conectados. Seja esta: depois de entregar nossa atenção, ainda reconhecemos a vida que estamos ajudando a construir?

Sources

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