O que uma novela brasileira ensina sobre quem ficará rico com a IA

Thati

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Sep 05, 2026

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E se a verdadeira vantagem não fosse a tecnologia, mas a capacidade de criar dependência?

Uma novela brasileira liderou o catálogo de uma plataforma de streaming durante cinco semanas e alcançou o primeiro lugar de audiência em 15 países. Ao mesmo tempo, estimativas indicam que a inteligência artificial poderá afetar quase 40% dos empregos no mundo, chegando a cerca de 60% nas economias avançadas.

À primeira vista, esses fatos pertencem a universos diferentes. De um lado, uma trama de ambição, vingança e celebridades. De outro, uma transformação econômica que envolve produtividade, qualificação profissional e desigualdade. Mas ambos apontam para a mesma pergunta:

Quem consegue transformar uma ferramenta ou uma história em um hábito recorrente captura a maior parte do valor criado?

A conexão importa porque costuma-se falar da inteligência artificial como se a desigualdade dependesse apenas de quem possui acesso ao software. O problema é mais profundo. A vantagem não está somente em usar a ferramenta, mas em possuir as condições que permitem integrá-la ao trabalho, à cultura e às instituições. O sucesso de uma novela em uma plataforma global oferece uma pequena, mas poderosa, imagem desse processo.

A inteligência artificial não será distribuída de maneira desigual apenas porque alguns países terão melhores modelos. Ela será distribuída de maneira desigual porque algumas pessoas, empresas e sociedades saberão transformar a tecnologia em complemento, enquanto outras a experimentarão apenas como substituição.

A questão decisiva não é quem terá acesso à inteligência artificial. É quem terá contexto, tempo, infraestrutura e poder de negociação para fazer dela uma extensão das próprias capacidades.

A novela como laboratório de complementos

Uma novela não é apenas um roteiro. Ela é uma cadeia de complementos. O texto precisa de atores capazes de dar corpo aos personagens. Os atores precisam de direção, fotografia, edição, figurino e divulgação. A produção precisa de uma plataforma que disponibilize o conteúdo. A plataforma precisa de uma audiência disposta a voltar no dia seguinte.

Se um desses elementos falha, o valor da obra diminui. Um roteiro brilhante sem distribuição pode permanecer invisível. Uma plataforma poderosa sem histórias que gerem retorno perde relevância. Uma produção tecnicamente impecável sem personagens que provoquem curiosidade não cria hábito.

O êxito de uma produção como Beleza Fatal revela precisamente essa lógica. Sua circulação internacional não dependeu de um único ingrediente. O desempenho nasceu da combinação entre narrativa, elenco, produção, catálogo, algoritmo de recomendação e comportamento do público. O resultado foi uma espécie de sistema de reforço: quanto mais pessoas assistiam, maior a visibilidade; quanto maior a visibilidade, maior a probabilidade de novas pessoas começarem a assistir.

A inteligência artificial funciona de forma semelhante. Um modelo poderoso, isoladamente, não produz produtividade. Ele precisa de dados confiáveis, processos reorganizados, trabalhadores capazes de avaliá-lo, infraestrutura digital, regras claras e gestores dispostos a alterar rotinas. Sem esses complementos, a tecnologia se torna uma demonstração impressionante, mas pouco transformadora.

Pense em duas empresas que recebem exatamente a mesma ferramenta de inteligência artificial. A primeira possui arquivos bem organizados, sistemas integrados e funcionários treinados para formular perguntas, verificar resultados e incorporar respostas ao fluxo de trabalho. A segunda tem documentos espalhados, processos dependentes de conhecimento informal e uma equipe sem tempo para aprender.

Para a primeira, a inteligência artificial pode ser uma camada adicional de capacidade. Para a segunda, pode produzir respostas frágeis, retrabalho e desconfiança. O acesso foi igual. O resultado, não.

Essa é uma das razões pelas quais a exposição à inteligência artificial não equivale ao benefício da inteligência artificial. Nas economias avançadas, uma parcela maior dos empregos será afetada pela tecnologia. Mas essa exposição vem acompanhada de maior capacidade para capturar seus ganhos. Em muitos empregos, a ferramenta poderá complementar trabalhadores e elevar sua produtividade. Em outros, poderá substituir tarefas inteiras.

Nos mercados emergentes e nos países de baixo rendimento, a exposição imediata tende a ser menor. Isso pode parecer uma vantagem, mas também pode esconder uma vulnerabilidade. Uma sociedade pode sofrer menos substituição hoje e, ainda assim, perder competitividade amanhã por não possuir infraestrutura digital, formação adequada ou empresas capazes de adotar a tecnologia.

A diferença é semelhante àquela entre receber uma história e possuir uma indústria cultural. O espectador pode ter acesso ao episódio, mas o valor econômico maior fica distribuído entre quem escreveu, produziu, financiou, promoveu e controla o canal de distribuição.

O perigo de confundir acesso com participação

O discurso sobre inovação costuma celebrar a democratização do acesso. E o acesso é importante. No entanto, ele não responde à pergunta central: quem participa da criação do valor?

Uma plataforma pode tornar uma produção nacional disponível para milhões de pessoas em diversos países. Isso amplia o alcance cultural dos criadores. Mas a própria plataforma também concentra dados sobre a audiência, controla a visibilidade e define parte das condições de distribuição. A expansão da audiência e a concentração do poder podem ocorrer simultaneamente.

O mesmo vale para a inteligência artificial. Uma ferramenta pode estar disponível a qualquer pessoa com uma conexão à internet, mas seus benefícios econômicos tendem a se acumular entre aqueles que já possuem ativos complementares: capital, formação, dados, redes profissionais, autoridade para decidir e capacidade de experimentar sem colocar a renda em risco.

Imagine uma profissional de marketing e uma trabalhadora administrativa usando o mesmo assistente de IA. A primeira talvez consiga produzir mais campanhas, testar mais ideias e demonstrar impacto diretamente nas receitas da empresa. A segunda pode automatizar tarefas repetitivas, mas corre o risco de ter seu posto reduzido, especialmente se não tiver autonomia para redesenhar o trabalho.

A ferramenta é a mesma. A posição de barganha é diferente.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que a inteligência artificial pode ampliar a desigualdade mesmo quando eleva a produtividade geral. Se a tecnologia complementa principalmente trabalhadores com maiores rendimentos, sua contribuição pode aumentar o valor desses profissionais. Se também eleva os retornos do capital, os proprietários das empresas e dos sistemas tecnológicos capturam outra parcela dos ganhos.

A produtividade cresce, mas o crescimento não se distribui automaticamente. Uma empresa pode produzir mais com menos pessoas e ainda não criar melhores oportunidades para todos. A questão política não é impedir a inovação, mas decidir como os ganhos serão repartidos e como os trabalhadores poderão migrar para atividades em que sua capacidade humana seja valorizada.

Aqui, a lógica do novelão oferece outra pista. O que mantém o público não é simplesmente uma sequência de imagens geradas com eficiência. É a combinação entre conflito, identificação, surpresa, ritmo e continuidade. A tecnologia pode acelerar a produção, mas não elimina a necessidade de compreender o que faz alguém retornar.

No trabalho, algo semelhante acontece. As tarefas mais vulneráveis são aquelas que podem ser isoladas, descritas e reproduzidas. As tarefas mais resistentes costumam envolver julgamento, confiança, negociação, responsabilidade e leitura de contexto. A pergunta útil para qualquer profissional não é apenas se a IA pode executar sua tarefa, mas se ele consegue se tornar indispensável na definição do problema, na avaliação da resposta e na relação com as pessoas afetadas.

A economia da recorrência

O sucesso de uma obra de streaming não é medido apenas por quantas pessoas a experimentam. O indicador decisivo é quantas continuam assistindo, comentando e recomendando. O mesmo princípio pode ser chamado de economia da recorrência: o valor aumenta quando uma relação se repete e se aprofunda.

Na inteligência artificial, a recorrência aparece quando a ferramenta deixa de ser uma novidade e se transforma em parte do processo. Uma empresa que usa IA uma vez para redigir um texto não mudou necessariamente sua economia. Uma empresa que reorganiza atendimento, análise, desenvolvimento de produtos e treinamento ao redor de ciclos contínuos de colaboração com a tecnologia está construindo uma capacidade acumulativa.

A diferença entre experimentação e transformação está na integração.

Podemos visualizar essa diferença por meio de quatro camadas:

  1. Acesso: a pessoa ou a empresa consegue utilizar a ferramenta?
  2. Competência: sabe formular solicitações, verificar erros e interpretar resultados?
  3. Integração: a ferramenta está ligada a dados, processos e decisões reais?
  4. Poder de captura: quem se apropria do valor gerado, o trabalhador, a empresa, a plataforma ou o proprietário do capital?

Muitas políticas públicas ficam presas à primeira camada. Distribuem dispositivos, conectividade ou licenças e anunciam inclusão. Isso é necessário, mas insuficiente. Sem competência, a ferramenta é subutilizada. Sem integração, ela permanece periférica. Sem poder de captura, seus ganhos podem ser apropriados por quem já ocupa a posição mais forte.

A história de uma produção audiovisual que atravessa fronteiras também mostra que a localidade não é o oposto da escala. Uma narrativa pode nascer de referências específicas e, ainda assim, alcançar uma audiência internacional. O que permite essa expansão não é apagar sua origem, mas conectá-la a uma infraestrutura capaz de distribuí-la.

Para países emergentes, essa é uma lição estratégica. A meta não deveria ser apenas importar ferramentas de inteligência artificial produzidas em outros lugares. Também é preciso construir modelos de uso adaptados a línguas, instituições, setores e problemas locais. Infraestrutura digital e força de trabalho competente não são despesas auxiliares. São a rede de distribuição da produtividade futura.

Sem essa base, os países podem tornar-se apenas consumidores de sistemas desenvolvidos em outros centros. Usarão a tecnologia, mas não controlarão os dados, os padrões, as decisões ou a maior parte do valor econômico. A distância entre adoção e soberania pode crescer rapidamente.

O que fazer antes que a narrativa esteja escrita

A resposta à desigualdade tecnológica não pode ser um único programa de requalificação oferecido depois que os empregos desaparecem. A formação precisa acompanhar a transformação do trabalho, e não funcionar como cerimônia de despedida para ocupações já destruídas.

Há pelo menos três frentes complementares.

A primeira é preparar pessoas para trabalhar com sistemas inteligentes, ensinando não apenas comandos, mas raciocínio crítico, comunicação, domínio de área e verificação. Saber detectar uma resposta plausível e errada será tão importante quanto saber produzi-la.

A segunda é preparar organizações para redesenhar funções. Se uma empresa adota IA apenas para cortar custos, a transição tende a ser vivida como ameaça. Se a usa para eliminar burocracia, ampliar autonomia e liberar tempo para tarefas de maior valor, cria uma possibilidade de complementaridade. A tecnologia não determina esse resultado. A administração e as instituições de trabalho ajudam a determiná-lo.

A terceira é preparar sociedades para repartir os ganhos. Redes de proteção social, formação contínua e políticas de mobilidade profissional não são obstáculos à inovação. São condições para que pessoas possam atravessar períodos de mudança sem aceitar qualquer emprego em desespero ou rejeitar a tecnologia por medo legítimo de exclusão.

O ponto não é prometer que todos manterão a mesma função. Transformações profundas inevitavelmente alteram ocupações. O objetivo é garantir que a mudança não converta uma grande parte da população em espectadora dos ganhos produzidos por seu próprio trabalho.

Principais conclusões

  • Avalie complementos, não apenas ferramentas. Antes de adotar uma solução de IA, identifique quais dados, processos, competências e decisões serão necessários para que ela gere valor.
  • Transforme uso ocasional em capacidade institucional. Escolha um fluxo de trabalho recorrente, meça resultados e documente o que foi aprendido. A vantagem surge da integração contínua.
  • Invista em julgamento humano. Comunicação, contexto, responsabilidade, criatividade e confiança tornam-se mais valiosos quando a execução básica é automatizada.
  • Pergunte quem captura o ganho. Em qualquer projeto de automação, examine como os benefícios serão distribuídos entre trabalhadores, clientes, empresas e proprietários da tecnologia.
  • Defenda infraestrutura e formação como política econômica. Conectividade, educação digital e redes de proteção definem quem poderá participar da próxima camada de produtividade.

A próxima disputa será pela atenção e pela autonomia

Talvez o aspecto mais surpreendente dessa conexão seja que tanto uma novela quanto uma tecnologia de produtividade dependem de algo que não aparece em suas especificações: a capacidade de criar uma relação duradoura com as pessoas.

Uma história vence quando se torna um hábito. Uma ferramenta vence quando se torna parte do pensamento e do trabalho. Em ambos os casos, a distribuição inicial importa, mas a permanência importa mais. O sistema que controla a recorrência acumula dados, influência e poder de negociação.

Por isso, a pergunta sobre a inteligência artificial não deveria ser apenas quantos empregos ela afetará. Deveríamos perguntar quais pessoas terão condições de participar da concepção dos novos processos, quais instituições controlarão as plataformas e quais sociedades conseguirão transformar acesso em autonomia.

Uma obra brasileira que chega ao primeiro lugar em vários países mostra que a escala pode nascer de uma identidade específica quando existe uma boa infraestrutura de circulação. A inteligência artificial oferece uma oportunidade semelhante para o trabalho e para os países, mas somente se a infraestrutura não servir apenas para distribuir produtos alheios. Ela precisa permitir que mais pessoas criem, adaptem, decidam e capturem valor.

No fim, a grande divisão não será entre humanos e máquinas. Será entre aqueles que conseguem usar máquinas para ampliar sua capacidade de escolha e aqueles que apenas recebem as consequências das escolhas feitas por outros.

A tecnologia pode escrever cenas novas para a economia. Mas quem terá o direito de decidir o enredo ainda está em aberto.

Sources

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