A política virou uma disputa por pertencimento, e as marcas ainda estão falando sozinhas
Hatched by Thati
Aug 10, 2026
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Uma geração pode estar se afastando politicamente não porque deixou de acreditar em alguma coisa, mas porque passou a procurar pertencimento em lugares diferentes. Enquanto jovens mulheres se aproximam de pautas progressistas e jovens homens demonstram maior afinidade com posições conservadoras, outra transformação acontece em paralelo: pessoas escolhem marcas que parecem autênticas, próximas e capazes de falar com elas, em vez de simplesmente falar para elas.
À primeira vista, são fenômenos de naturezas distintas. Um pertence à política, o outro ao marketing. Mas ambos revelam a mesma mudança profunda: as pessoas já não recebem identidades prontas de instituições comuns. Elas constroem suas visões de mundo em comunidades separadas, com linguagens, símbolos e experiências próprias. Quando uma instituição tenta se comunicar com todos usando uma única voz, frequentemente não produz união. Produz desconfiança.
A questão decisiva, portanto, não é apenas por que homens e mulheres jovens estão se dividindo. É esta: como uma sociedade pode falar de forma legítima com públicos que já não compartilham a mesma experiência de realidade?
A fratura não começa nas opiniões, começa nas experiências
Durante muito tempo, era razoável imaginar que homens e mulheres da mesma geração desenvolveriam posições políticas relativamente semelhantes. Frequentavam escolas parecidas, consumiam meios de comunicação semelhantes, partilhavam referências culturais e, em muitos casos, construíam suas vidas dentro das mesmas estruturas familiares e econômicas.
Essa convergência não significava ausência de conflitos. Significava que os conflitos eram filtrados por instituições comuns. A igreja, a escola, o sindicato, o partido, a televisão e até a família funcionavam como tradutores compartilhados. Pessoas discordavam, mas discordavam dentro de um mesmo mapa.
Esse mapa está desaparecendo. Jovens mulheres podem interpretar a política principalmente através de questões como autonomia corporal, desigualdade, violência e reconhecimento. Jovens homens podem interpretá-la através de temas como ordem, status, família, religião, fronteiras, liberdade econômica e sensação de perda de relevância. Essas preocupações não são necessariamente imaginárias, mas tampouco são neutras. Elas surgem de experiências sociais diferentes e são reforçadas por redes digitais diferentes.
O resultado é uma espécie de divergência de realidade. Não se trata apenas de votar em partidos opostos. Trata-se de observar os mesmos acontecimentos e atribuir a eles causas morais distintas. Uma pessoa vê uma política de proteção e enxerga reparação. Outra vê paternalismo e controle. Uma interpreta uma mudança cultural como progresso. Outra a interpreta como ameaça à continuidade de sua comunidade.
O debate público costuma tratar essa divisão como um problema de informação. Se todos tivessem acesso aos fatos corretos, imagina-se, chegariam a conclusões parecidas. Mas muitas disputas contemporâneas não são disputas sobre fatos isolados. São disputas sobre quem tem o direito de definir o que conta como uma vida digna, segura e respeitável.
É nesse ponto que a conexão com as marcas se torna importante. Pesquisas sobre relacionamento entre consumidores e marcas indicam que autenticidade e identificação pesam mais do que a qualidade técnica da produção ou a quantidade de vezes que o produto aparece. As pessoas querem sentir que uma empresa está presente para elas, não que está apenas tentando falar com elas.
A mesma lógica vale para a política. Antes de aceitar uma proposta, um eleitor avalia, muitas vezes intuitivamente, se o grupo que a apresenta compreende sua experiência. A pergunta silenciosa não é somente “isso funciona?”. É também: “essas pessoas sabem como é estar no meu lugar?”
O problema da comunicação que parece uma campanha
Uma mensagem pode ser verdadeira e ainda assim ser rejeitada. Pode ser bem produzida, tecnicamente impecável, moralmente defensável e estrategicamente inútil. Isso acontece quando o público sente que está sendo tratado como um alvo, não como um participante.
Pense em duas lojas de bairro. A primeira instala uma fachada sofisticada, usa imagens perfeitas e anuncia que entende a comunidade. A segunda conhece os nomes dos clientes, ajusta o horário de funcionamento às necessidades locais e admite quando não tem determinado produto. A primeira pode ser mais bonita. A segunda parece mais confiável.
Autenticidade não é uma estética. É uma relação de risco. Uma organização parece autêntica quando demonstra que está disposta a ouvir, adaptar-se e arcar com consequências. Um vídeo com aparência espontânea não cria proximidade se a empresa ignora reclamações. Da mesma forma, um político que repete palavras populares não constrói pertencimento se desaparece quando surgem custos ou conflitos.
A comunicação institucional frequentemente falha porque tenta resolver uma crise de confiança com mais conteúdo. Publica mais vídeos, lança mais slogans, aumenta a frequência das mensagens e segmenta melhor os anúncios. Porém, se o problema é a sensação de que ninguém está ouvindo, produzir mais declarações apenas amplifica a distância.
O mesmo mecanismo ajuda a explicar a radicalização de grupos jovens. Quando uma pessoa não se sente reconhecida por instituições tradicionais, ela procura espaços que ofereçam três coisas: uma explicação para sua frustração, uma comunidade que confirme sua percepção e uma identidade que converta confusão em direção.
Comunidades políticas conservadoras podem oferecer a alguns homens uma narrativa de ordem, disciplina, responsabilidade e restauração de dignidade. Comunidades progressistas podem oferecer a algumas mulheres uma narrativa de autonomia, justiça, proteção e transformação das estruturas que limitam suas escolhas. Essas narrativas não são completas, e podem ser exploradas por líderes oportunistas. Ainda assim, elas têm força porque respondem a necessidades emocionais e sociais reais.
A lição para marcas, governos e organizações é desconfortável: as pessoas não aderem apenas a ideias; aderem a intérpretes de suas próprias vidas. Quem consegue nomear uma experiência antes confusa ganha autoridade. Quem apenas corrige o vocabulário do público, sem compreender sua experiência, costuma perder essa autoridade.
A autenticidade tem uma arquitetura
É comum falar de autenticidade como se fosse uma qualidade individual. Uma pessoa é autêntica, uma marca é autêntica, um político é autêntico. Mas a autenticidade pública funciona melhor como um sistema composto por quatro elementos.
O primeiro é reconhecimento. A instituição precisa mostrar que percebe a situação concreta do outro. Não basta dizer que todos são importantes. É preciso identificar o que aquela comunidade teme, deseja ou considera injusto, sem transformar suas pessoas em caricaturas.
O segundo é coerência. A mensagem precisa combinar com o comportamento. Uma empresa que celebra diversidade, mas trata funcionários vulneráveis como descartáveis, comunica mais pela contradição do que pelo anúncio. Um movimento que fala em liberdade, mas não tolera nenhuma divergência interna, revela que seu princípio é seletivo.
O terceiro é reciprocidade. Comunicação legítima não é uma transmissão unilateral. Ela cria um circuito no qual o público pode responder e alterar alguma coisa. Quando os consumidores dizem que querem que as marcas apareçam para eles, em vez de falar com eles, estão pedindo precisamente isso: presença com escuta, não apenas visibilidade.
O quarto é custo. Uma posição que não exige sacrifício parece uma decoração. A confiança aumenta quando a organização aceita perder alguma conveniência, receita, prestígio ou controle para permanecer fiel ao que afirma. O custo não precisa ser teatral. Pode ser admitir um erro, abandonar uma campanha, reformular um produto ou defender um grupo quando isso não é comercialmente conveniente.
Podemos resumir essa arquitetura em uma fórmula útil:
Autenticidade percebida = reconhecimento + coerência + reciprocidade + custo assumido.
Não é uma equação científica. É uma ferramenta de diagnóstico. Uma marca pode ser coerente, mas não reconhecer o público. Pode reconhecer o público, mas não permitir resposta. Pode ouvir, mas nunca mudar. Em todos esses casos, haverá comunicação, porém não haverá confiança duradoura.
Essa estrutura também esclarece a divisão política entre jovens. Partidos e instituições que desejam reunir homens e mulheres não podem simplesmente criar uma mensagem mais neutra. Neutralidade, em contextos de desconfiança, pode soar como evasão. O desafio é reconhecer experiências específicas sem transformar diferenças em destinos inevitáveis.
O erro de escolher entre unidade e identidade
Quando a sociedade se fragmenta, surgem duas respostas previsíveis. A primeira é exigir uma mensagem universal, como se insistir em valores comuns pudesse apagar diferenças. A segunda é abandonar qualquer projeto comum e tratar cada grupo como um mercado separado, com seus próprios slogans, inimigos e versões da realidade.
As duas respostas são insuficientes.
A mensagem universal falha porque confunde igualdade com uniformidade. Dizer “somos todos iguais” para pessoas com experiências radicalmente diferentes pode funcionar como uma forma elegante de não ouvir ninguém. Já a segmentação total falha porque transforma cidadãos e consumidores em nichos isolados, cada um treinado para desconfiar dos outros.
Uma alternativa mais promissora é distinguir entre experiência específica e princípio compartilhado. Pessoas podem ter razões diferentes para valorizar segurança. Uma mulher pode pensar na segurança diante da violência doméstica. Um homem pode pensar na segurança econômica ou na estabilidade da família. O princípio pode ser comum, mas a experiência que dá sentido a ele não é.
A tarefa de uma instituição madura é fazer tradução entre experiências sem apagar nenhuma delas. Isso exige uma comunicação em duas camadas. A primeira diz: “vemos o que há de particular na sua situação”. A segunda pergunta: “que compromisso podemos construir juntos a partir disso?”.
Para uma marca, isso significa adaptar linguagem, produto e atendimento aos contextos reais dos públicos, sem inventar uma personalidade diferente para cada grupo. Para uma organização política, significa reconhecer que liberdade, ordem, igualdade, tradição e proteção podem assumir sentidos diferentes para pessoas diferentes, e que nenhum desses termos deve ser monopolizado por uma única tribo.
Uma analogia ajuda. Uma ponte não elimina as margens de um rio. Ela as conecta precisamente porque reconhece que existem duas margens. Instituições que tentam apagar diferenças constroem um terreno artificial. Instituições que apenas celebram a separação deixam cada grupo preso ao seu lado. A ponte exige engenharia: suportes, manutenção, materiais compatíveis e disposição para lidar com a correnteza.
O que líderes e marcas podem fazer agora
Se a autenticidade depende de relação, então ela não pode ser produzida apenas pelo departamento de comunicação. Ela precisa aparecer nas decisões, nos canais de escuta e na distribuição de poder. Algumas práticas são especialmente úteis.
Primeiro, substitua a pergunta “qual mensagem devemos enviar?” por “qual experiência estamos tornando possível?”. Um banco não demonstra proximidade ao publicar uma campanha sobre inclusão se seus serviços continuam inacessíveis para quem tem baixa renda. Uma organização não demonstra respeito aos jovens se convida sua opinião apenas depois de tomar todas as decisões importantes.
Segundo, mapeie diferenças internas sem reduzi-las a estereótipos. A divisão entre homens conservadores e mulheres progressistas descreve uma tendência, não uma lei da natureza. Há homens progressistas, mulheres conservadoras e uma ampla variedade de posições entre esses polos. O objetivo da análise não é encaixar pessoas em caixas, mas descobrir quais experiências estão sendo ignoradas.
Terceiro, crie mecanismos visíveis de resposta. Uma comunidade confia mais quando sabe como suas contribuições foram consideradas. Depois de uma pesquisa, informe o que mudou, o que não mudou e por quê. A transparência sobre limites costuma ser mais crível do que a promessa de atender a todos.
Quarto, teste a autenticidade fora do ambiente controlado. Uma mensagem pode parecer excelente em uma reunião de executivos e estranha para quem vive o problema. Converse com clientes, funcionários e cidadãos em ambientes onde não possam ser facilmente conduzidos à resposta desejada. Escute histórias específicas, não apenas opiniões abstratas.
Quinto, procure conflitos produtivos em vez de consenso artificial. Se homens e mulheres jovens estão desenvolvendo prioridades diferentes, a resposta não deve ser fingir que a diferença não existe. Deve ser criar espaços nos quais essas prioridades possam ser comparadas sem que cada grupo precise provar que o outro é moralmente ilegítimo.
Key Takeaways
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Diagnostique a experiência antes de criar a mensagem. Descubra o que cada público teme, valoriza e considera uma ofensa, em vez de começar pelo slogan.
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Trate autenticidade como comportamento verificável. Pergunte se sua organização reconhece problemas, age de modo coerente, aceita respostas e assume algum custo real.
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Não confunda segmentação com compreensão. Adaptar a linguagem a grupos diferentes é útil. Criar versões contraditórias da própria identidade destrói confiança.
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Use princípios compartilhados como pontes. Segurança, liberdade, dignidade e justiça podem ser valorizadas por grupos distintos, mesmo quando suas experiências e soluções divergem.
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Mostre o que mudou por causa da escuta. Sem consequências visíveis, ouvir torna-se apenas uma performance de proximidade.
A grande transformação em curso não é simplesmente uma batalha entre esquerda e direita, homens e mulheres, marcas e consumidores. É a passagem de um mundo de instituições que presumiam possuir autoridade para um mundo em que toda autoridade precisa ser continuamente demonstrada.
Nesse novo ambiente, falar bem não basta. Parecer moderno não basta. Produzir conteúdo impecável não basta. Pessoas querem sinais de que foram vistas, de que suas respostas têm algum efeito e de que a instituição diante delas continuará presente quando a conversa deixar de ser conveniente.
Talvez a divisão política entre jovens seja, em parte, o sintoma de uma falha de tradução. Grupos diferentes estão encontrando comunidades que conseguem nomear suas dores com mais precisão do que as instituições tradicionais. Se essas instituições quiserem reconstruir confiança, não devem começar tentando recuperar atenção. Devem começar perguntando por que perderam o direito de ser ouvidas.
A organização do futuro não será aquela que falará com mais públicos. Será aquela que conseguirá transformar diferenças de experiência em uma relação comum, sem exigir que ninguém deixe sua realidade do lado de fora.
Sources
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