existe um caminho entre a caricatura e a erudição cega — um caminho que exige do leitor não que abandone seu senso crítico, mas que o exercite em território desconhecido.
Lacan não é difícil porque é obscuro por capricho. É difícil porque o objeto de que fala — o inconsciente, o desejo, a linguagem que nos habita — é genuinamente refratário à clareza imediata.
O primeiro volume desta coleção tem uma função que vai além da apresentação biográfica ou histórica. Ele existe para instalar um problema. Ler Lacan sem problema prévio é como caminhar por um labirinto sem saber que é um labirinto — pode-se ir longe, mas dificilmente se chega a algum lugar.
modo que o próprio Lacan entendia o ensino: não como transmissão de informação, mas como formação de uma certa posição de escuta.
Lacan foi, ao longo de sua vida, amplamente mal interpretado — tanto por adversários que o viam como charlatão quanto por discípulos que o elevavam a profeta.
A biografia de Lacan interessa ao leitor desta coleção não como ornamento anedótico, mas como contexto intelectual indispensável. Ao contrário do que certa tradição filosófica preferiria — aquela que separa a obra do autor como se o pensamento nascesse no vácuo —, as ideias de Lacan estão profundamente enraizadas nas tensões culturais, científicas e políticas do século XX europeu.
Trata-se de uma dificuldade que é, ela própria, uma posição teórica. Lacan escrevia para não ser facilmente digerido. E isso, naturalmente, produziu dois campos radicalmente opostos: aqueles que viram nessa dificuldade a marca de uma inteligência superior, e aqueles que a identificaram como o emblema de um charlatanismo sofisticado.
A fórmula que Lacan propôs para o toro topológico como modelo do sujeito, ou sua utilização de números imaginários para falar do falo, foram tratadas pelos autores como exemplos claros de "abuso de notação científica".










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