No tratamento de seus escravos, as leis conferiam aos senhores um universo de poder. Tudo quanto, pois, havia sido sancionado pelo código civil era considerado por muitos como inerentemente justo. Sua crueldade às vezes chegava a tal ponto que os imperadores romanos foram forçados a restringir sua tirania. Mas, ainda que não houvesse nenhum edito imperial promulgado em defesa dos escravos, Deus não permite aos senhores nenhum poder sobre eles além do que é consistente com a lei do amor. Quando os filósofos tentavam dar aos princípios da eqüidade seu pleno efeito em restringir a severidade ministrada aos escravos, ensinavam que os senhores os tratassem da mesma forma que os servos assalariados. No entanto, nunca iam além da esfera da utilidade; e, ao julgá-la, averiguavam somente o que era vantajoso ao chefe de família e conveniente à sociedade. Paulo evoca um princípio muito diferente. Ele estabelece o que é legítimo segundo a determinação divina e o quanto também são devedores a seus servos. Fazei-lhes o mesmo. Primeiramente diz: “De vossa parte, cumpri os deveres para com eles.” O que em outra epístola ele chama “o que é da justiça e eqüidade” (τὸ δίκαιον καὶ τὴν ἰσότητα) [Cl 4.1], é o que, nesta passagem, ele chama “as mesmas coisas” (τὰ αὐτὰ). E o que é isso senão a lei da analogia, como a chamam? A condição de senhores e servos não é deveras igual; mas há certo direito mútuo entre eles; ou seja, os servos são vinculados aos seus senhores; e desse modo, em contrapartida, uma vez lembrada a diferença de classe, os senhores estão sob certas obrigações para com seus servos. Tal analogia é erroneamente avaliada, visto que os homens não a põem à prova pela lei do amor, a qual é o único padrão legítimo. Eis o que Paulo quer dizer pelo termo “as mesmas coisas”; pois todos nós estamos bem prontos a demandar o que nos é devido; mas, quando chega nossa vez de pôr em prática nossos próprios deveres, cada um se prontifica a reivindicar sua isenção. Entretanto, é principalmente entre os poderosos e aristocratas que predomina injustiça de tal natureza. Deixando as ameaças. Cada sorte de insulto, emanando do orgulho dos senhores, é compreendida numa única palavra: ameaças. São culpados, não de assumirem um ar senhoril, ou uma atitude agressiva, como se estivessem constantemente ameaçando fazer algum mal a seus servos, quando lhes ordenam que realizem alguma tarefa. Ameaças, e toda sorte de desumanidade, têm origem quando os senhores tratam os servos como se fossem gado, como se houvessem nascido única e exclusivamente para servi-los. Sob esse único exemplo, o apóstolo proíbe todo e qualquer tratamento insultuoso e desumano. O Senhor tanto deles quanto vosso. Eis uma advertência em extremo necessária. Pois não há nada que não ousaremos perpetrar contra aqueles que se encontram sujeitos a nós, se eles não têm a menor chance de resistir-nos e nenhum meio de obter seus direitos; se não lhes surge nenhum vingador, nenhum protetor, ninguém que se mova de...
Quando essa ambição reina em nosso coração, de modo que desejamos regular nossa linguagem, para obter o favor dos homens, nosso ensino não é sincero.
Paulo argumenta, em primeiro lugar, que fora chamado pela graça de Deus; em seguida, que seu apostolado fora reconhecido pelos demais apóstolos;
Sem dúvida alguma, Deus havia decretado, antes da fundação do mundo, o que faria a respeito de cada um de nós e destinado a cada um, mediante seu conselho secreto, o devido lugar na vida.
Deus é revelado como quem nos separa desde o ventre materno, visto que o propósito de sermos enviados ao mundo é que Ele realize em nós o que já decretou.
“Quando aprouve a Deus revelar, por meu intermédio, o seu Filho, Ele me chamou, porque já me havia separado”.
devemos crer que é inteiramente pelo dom de Deus, e não pelo fruto de nossos próprios esforços, que temos sido chamados para administrar a sua igreja.
Eis o que Paulo estava realmente dizendo: “Para que meus labores passados não sejam desprezados e se tornem inúteis, esclareci a dúvida que aflige a muitos: quem merece a confiança de vocês: eu ou Pedro? Pois, em tudo que tenho ensinado, ele e eu estamos de pleno acordo”.
assim como “devemos suportar as debilidades dos fracos” [Rm 15.1], assim também precisamos resistir, com vigor, aos inimigos astutos que espreitam deliberadamente a nossa liberdade.
Os falsos apóstolos não aboliam totalmente o evangelho, mas o adulteravam com opiniões pessoais, de modo que ele se tornava falso e mascarado.










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