A estética do ressentimento tem sido um tema recorrente na dramaturgia e no cinema, despertando a identificação e a simpatia do público. O personagem ressentido, que se vê moralmente superior aos outros e justifica sua vingança, promove a adesão do público através da identificação com o ressentimento ou da simpatia movida pela má consciência. Esse tipo de personagem não exige grande consistência psicológica, pois não questiona a si mesmo nem a justiça de suas queixas e atos.

Thati

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Mar 22, 2024

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A estética do ressentimento tem sido um tema recorrente na dramaturgia e no cinema, despertando a identificação e a simpatia do público. O personagem ressentido, que se vê moralmente superior aos outros e justifica sua vingança, promove a adesão do público através da identificação com o ressentimento ou da simpatia movida pela má consciência. Esse tipo de personagem não exige grande consistência psicológica, pois não questiona a si mesmo nem a justiça de suas queixas e atos.

O ressentimento surge como uma consequência da recusa do sujeito em se envolver com seu próprio desejo. Ao se ressentir, o sujeito está constantemente reatualizando um sentimento de mágoa e revolta contra o outro. Essa renúncia ao desejo e a necessidade de vingança contra os supostos agentes de sua infelicidade mantêm o sujeito preso em um ciclo de ressentimento e incapacidade de reconhecer sua própria responsabilidade.

Para superar o ressentimento, é necessário elaborar a ambivalência entre o eu e o outro, reconhecendo que o outro sou eu, mas ao mesmo tempo é aquilo que quero expulsar de mim. Essa elaboração permite que o semelhante ocupe um lugar diferente na vida psíquica do sujeito, possibilitando a superação do ressentimento.

Nietzsche, em sua obra "Genealogia da Moral", expõe a patologia do ressentimento e inverte os termos da moral cristã. Segundo Nietzsche, o ressentimento nasce quando a ação que importa está proibida para o sujeito, levando-o a uma vingança imaginária. O ressentido parece ativo, mas suas ações são, na verdade, reações. Essa passividade do ressentimento confere ao ressentido uma profundidade e interesse psicológico, pois ele se recusa a fazer contato com o outro, expressando seu sentimento por meio de monólogos interiores.

Um exemplo de filme que ilustra bem a estética do ressentimento é "O Piano", dirigido por Jane Campion. O filme retrata a opressão de uma mulher no casamento, promovendo a identificação do público com a personagem ressentida. Através da repetição do ressentimento, o filme oferece ao espectador a esperança de que o outro possa ser responsabilizado pelas consequências dos atos e decisões do sujeito, permitindo que ele aja em nome próprio sem se sentir totalmente responsável.

No entanto, Nietzsche também enxerga o gozo presente na resistência passiva do ressentimento. O ressentido vive a repetição de um gozo, preso às pulsões de morte, ao invés de se entregar aos prazeres da vida. Essa resistência passiva é uma forma de evitar a consumação rápida do sujeito nos variados prazeres possíveis, revelando a lógica do ressentimento.

Como contraposição à estética do ressentimento, o filme "Dead Man", dirigido por Jim Jarmusch, retrata a superação do ressentimento. O protagonista, um sujeito ingênuo, se vê confrontado com as consequências de suas escolhas feitas ao acaso. O filme faz referências irônicas às origens recalcadas da cultura ocidental, resgatando tradições abandonadas e saberes desprestigiados pela velocidade da época presente.

Em outro contexto, o livro "O precariado: a nova classe perigosa", de Guy Standing, analisa a emergência de uma nova classe social, o precariado. Essa classe caracteriza-se pela instabilidade e pela falta de segurança no trabalho, resultando em precarização e vulnerabilidade. Essa análise é especialmente relevante nos dias de hoje, em que a precarização do trabalho tem se tornado cada vez mais comum.

Diante desse panorama, é possível identificar pontos de conexão entre a estética do ressentimento, a superação do ressentimento e a emergência do precariado. Ambos os temas abordam a vulnerabilidade e a falta de segurança, seja no âmbito psicológico, como no ressentimento, ou no âmbito socioeconômico, como no precariado.

Diante dessas questões, é importante refletir sobre como lidar com o ressentimento e buscar formas de superá-lo. Alguns conselhos práticos incluem:

  • 1. Autoconhecimento: Reconheça suas próprias emoções e impulsos, buscando compreender as motivações por trás do ressentimento. Isso pode ajudar a identificar padrões e encontrar maneiras mais saudáveis de lidar com as situações.
  • 2. Empatia: Tente se colocar no lugar do outro e compreender suas perspectivas e motivações. Isso pode ajudar a reduzir os sentimentos de ressentimento e promover uma comunicação mais saudável.
  • 3. Perdão: Pratique o perdão, tanto para si mesmo quanto para os outros. O perdão não significa esquecer ou aceitar o que aconteceu, mas sim liberar o peso emocional do ressentimento e buscar a paz interior.

Em conclusão, a estética do ressentimento tem sido explorada na dramaturgia e no cinema, despertando a identificação e a simpatia do público. O ressentimento surge como consequência da recusa do sujeito em se implicar em seu próprio desejo, levando-o a buscar vingança contra os supostos agentes de sua infelicidade. Nietzsche expõe a patologia do ressentimento e sua resistência passiva, enquanto filmes como "O Piano" e "Dead Man" retratam a estética do ressentimento e a superação desse sentimento. Além disso, o livro "O precariado: a nova classe perigosa" analisa a emergência de uma nova classe social vulnerável e precarizada. Diante dessas reflexões, é importante buscar formas de lidar com o ressentimento e encontrar caminhos para a superação. O autoconhecimento, a empatia e o perdão são algumas das práticas que podem auxiliar nesse processo.

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